Júlia Nazário e Ruane Barbosa
“Com uma semana que meu filho havia nascido, o pai dele disse que não dava mais e que ia embora. Fiquei sozinha com o bebê nos braços, sem saber o que fazer. Um pouco depois, fui expulsa de casa. E aí começou o meu sofrimento como mãe solteira.” O relato é de Marli Márcia da Silva, fundadora e presidente da Associação Pernambucana das Mães Solteiras (Apemas).

APEMAS – Marli Márcia da Silva criou associação para garantir direitos das mães solteiras. Foto: Giovanni Costa
A entidade surgiu com o objetivo de amparar as mães solo e garantir direitos, além de incentivar a responsabilidade financeira e afetiva por parte dos pais. “Muitas mulheres se orgulham de ser mães solo. Eu também me orgulho, mas não podemos romantizar a situação a ponto de não buscar esse homem para assumir a responsabilidade dele pela criança”, conclui Marli.
Direitos
Desde 2024, Pernambuco conta com um instrumento destinado a proteger as mães solo. Criada pela Lei nº 18.668, de iniciativa da deputada Socorro Pimentel (União), a Política Estadual de Promoção e Defesa dos Direitos da Mãe Solo visa garantir proteção integral e direitos relativos ao mercado de trabalho, à assistência social e à educação infantil para essas famílias.

ESTIGMA – Para Socorro Pimentel, discriminação agrava dificuldades enfrentadas por mulheres que criam filhos sozinhas. Foto: Roberta Guimarães
A norma prevê, entre outras medidas, prioridade para elas em programas sociais do Governo do Estado, bem como na matrícula ou transferência dos filhos em escolas da rede pública. Também busca incentivar o ingresso e a permanência dessas mulheres no mercado de trabalho, por meio de capacitação profissional voltada ao empreendedorismo e à empregabilidade.
“A realidade das mães solo é marcada por desafios diários que vão além das responsabilidades parentais. Essas mulheres frequentemente enfrentam dificuldades ampliadas no acesso a recursos básicos para garantir um padrão de vida digno para si e para seus filhos”, observou a parlamentar, ao justificar a matéria.
Além disso, de acordo com Pimentel, “o estigma social e a discriminação muitas vezes agravam as dificuldades enfrentadas por elas, tornando imperativo o estabelecimento de políticas públicas que visem amparar e promover a inclusão social e econômica das mães solo”.
Cenário
Os dados reforçam a necessidade de políticas públicas nesse sentido. O Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo – cerca de 15% das famílias brasileiras, segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Já um levantamento feito em 2023 pela Fundação Getulio Vargas (FGV) revela que esse grupo aumentou 17,8% na última década. Essas mulheres enfrentam mais dificuldades para entrar no mercado de trabalho, o que atinge particularmente as mães negras e do Norte e Nordeste.

BOLSA – Fabiana Nascimento consegue sustentar família graças a auxílios do governo. Foto: Giovanni Costa
Fabiana Nascimento tem quatro filhos, que cria sozinha. Atualmente desempregada, consegue manter a casa com o apoio de benefícios como o Bolsa Família, do Governo Federal, e o auxílio do Programa Mães de Pernambuco, do Estado. Para ela, iniciativas que dialogam com a realidade da mãe solo pernambucana são fundamentais para o sustento da família.
“Meu maior desafio é não poder trabalhar. Com esses benefícios, meu coração de mãe fica mais tranquilo em saber que meus filhos têm o básico. Eu sou muito grata por isso”, conclui Fabiana.