
RESISTÊNCIA – Painel de Tereza Costa Rêgo reconstitui o episódio histórico. Foto: Jan Ribeiro/Secult-PE
Ruane Barbosa
No litoral norte de Pernambuco, há exatos 380 anos, um episódio de coragem marcou a história da resistência ao domínio holandês no século 17. Em 24 de abril de 1646, as mulheres do povoado de Tejucupapo, atualmente localizado no município de Goiana (Mata Norte), protagonizaram um confronto que ficou conhecido como a Batalha de Tejucupapo. Armadas não com espadas ou mosquetes, mas com panelas, água fervente, pimenta e muita estratégia, elas impediram o avanço das tropas que ameaçavam saquear o vilarejo.
A batalha ocorreu no início da chamada Insurreição Pernambucana, movimento que culminaria na expulsão dos holandeses do território pernambucano. “Em 1646, já estava em curso a chamada Guerra da Restauração. Os senhores de engenho começaram a se mobilizar para expulsar os holandeses que ocupavam o território desde 1630″, relata o historiador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) George Cabral. “Havia uma violência disseminada por toda parte e, nesse contexto de guerra, a situação das mulheres é ainda mais frágil, ainda mais perigosa”, explica.
Nesse momento, marcado por insegurança e escassez de alimentos, cerca de 600 soldados holandeses famintos deixaram o Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, em direção a Tejucupapo. Aproveitando-se de um domingo, quando muitos homens da comunidade estavam fora vendendo peixe e mandioca, os invasores acreditavam encontrar pouca resistência. Mas não foi o que aconteceu.
Marias
A história registra que foram três investidas em só dia, mas a resistência organizada por Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Maria Joaquina venceu o confronto, deixando mais de 300 holandeses mortos no Monte das Trincheiras.
O episódio é considerado a primeira batalha na história brasileira protagonizada por mulheres. Através das vozes das tejucupapoenses, a memória se manteve viva por séculos, até se firmar como símbolo da força popular e da coragem das mulheres nordestinas.
“Não era usual no passado colonial que as fontes escritas remetessem às mulheres. Era um mundo controlado por homens que produziam a documentação e frequentemente excluíam, simplesmente, as mulheres dessas narrativas”, ressalta George Cabral. “Foi nessa tradição oral que ficou viva essa ação de bravura das mulheres de Tejucupapo”, complementa.
Teatro
Na década de 1990, a história ganhou novo fôlego com a criação do Teatro Comunitário da Batalha de Tejucupapo.

TEATRO – Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo realizou em 2025 a 32ª edição do espetáculo sobre a batalha. Foto: Roberta Guimarães
A iniciativa partiu da técnica de enfermagem aposentada Luzia Maria da Silva. Ao enfrentar um problema de saúde, ela ouviu pela primeira vez a história quando estava no hospital, e o relato a ajudou a enfrentar as dificuldades da doença. Foi então que prometeu dedicar sua vida a divulgar a história das mulheres do povoado.
“Eu disse a Deus que, se eu saísse do hospital com vida, contaria a história, para todo mundo saber que as mulheres de Tejucupapo foram fortes e guerreiras”, relembra. “Esse acontecimento faz parte da minha história, e eu tenho prazer de contar, de falar de mulheres como nós, que somos guerreiras, que somos corajosas. Que temos coragem de enfrentar as dificuldades”, emenda.
Em 1993, Luzia Maria fundou o grupo que encena, todos os anos, o episódio histórico. Realizado no mês de abril, o espetáculo reúne marisqueiras, pescadoras, professoras, aposentadas e donas de casa, que vestem figurinos de época e recriam a batalha diante de um público que ultrapassa dez mil pessoas.
Patrimônio vivo
O espetáculo não é apenas tradição: ele movimenta a cidade, aquece a economia local e mantém viva uma identidade coletiva. Essa força cultural levou a Associação Grupo Cultural Heroínas de Tejucupapo a receber o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, em reconhecimento ao impacto que o teatro exerce não só em Goiana, mas em todo o estado e no país;
A Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) também reconheceu oficialmente o papel histórico das heroínas de Tejucupapo. Indicadas pelo deputado Henrique Queiroz Filho (PP), as mulheres passaram a integrar o Livro do Panteão dos Heróis e Heroínas de Pernambuco, que registra figuras e grupos que contribuíram de forma decisiva para a formação da identidade pernambucana.
A inclusão homenageia não apenas o ato de bravura em 1646, mas também a persistência das mulheres que garantiram que essa memória não se perdesse. Da tradição oral ao teatro popular, da história local ao reconhecimento institucional, agora as Mulheres de Tejucupapo são mais um dos destaques na história pernambucana, lembrando às novas gerações que coragem e resistência também são escritas com vozes femininas.
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