
LÍDER – Carol Vergolino salientou a alta mortalidade materna em comparação com outros países: “Em 2020, a cada dez casos no mundo, oito foram do Brasil”. Foto: Nando Chiappetta
No Brasil, 526 mulheres grávidas ou puérperas – aquelas que deram à luz há pouco tempo – perderam a vida para a Covid-19 nos quatro primeiros meses deste ano. O número já supera o total de 2020, quando houve 453 mortes maternas pela doença. Esses e outros dados foram apresentados, nesta terça (25), em uma audiência pública promovida pela Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Alepe. No encontro virtual, especialistas apontaram problemas correlatos, como o impacto da pandemia na rede de saúde e na realidade socioeconômica da população.
Integrante do mandato coletivo Juntas (PSOL), a codeputada Carol Vergolino salientou a alta mortalidade materna em comparação com outras nações. “No ano passado, a cada dez casos no mundo, oito foram do Brasil. Ou seja, morrem mais grávidas e puérperas no nosso País do que em todo o resto do planeta, o que é assustador”, observou.
Essa realidade também atingiu Pernambuco: o Recife registrou recorde de mortes maternas em, pelo menos, duas décadas, com 29 óbitos. Dez deles mencionam a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) ou a Covid-19 como possível causa. O número representa um aumento de 80% em relação à média dos últimos quatro anos, informou a secretária-executiva de Vigilância em Saúde do município, Marcella Abbath. Em relação a 2019, quando houve 11 casos, a alta é de 163%.
Em todo o Estado, foram 24 falecimentos de gestantes e puérperas em 2020, e outros 13 já neste ano. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, a maioria dessas mulheres eram negras: 76,5% em 2020, e 84,6% em 2021. “As comorbidades que geram mais risco para grávidas se dividem de maneira igual do ponto de vista racial, mas as mortes não. Isso mostra que a origem do problema é socioeconomica”, observou Leila Katz, obstetra do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) e integrante da Rede Feminista de Ginecologia e Obstetrícia.

SAÚDE – “Houve um desmantelamento do sistema de atendimento pré-natal”, relatou a médica Leila Katz. Foto: Nando Chiappetta
A médica ressaltou não ser surpresa que a Covid-19 afete as gestantes. “Isso ocorreu e foi demonstrado no restante do mundo. Mas, no Brasil, com a desestruturação da rede de saúde, a desigualdade e o racismo estrutural que atingem mulheres negras e pobres, estamos pior”, avaliou. “Mulheres grávidas pobres têm trabalho informal, sem possibilidade de licença remunerada, e precisam submeter-se ao transporte público lotado. Além disso, por causa da pandemia, houve um desmantelamento do sistema de atendimento pré-natal”, relatou.
Leila Katz alertou sobre as novas variantes do coronavírus, apelando para que as grávidas se preservem, evitem saídas desnecessárias e usem boas máscaras. Tais medidas, porém, dependeriam de uma renda mínima aceitável para esse segmento. “Das mulheres com esse perfil que faleceram no Brasil, 38% não tiveram acesso a UTI e 44% não foram sequer intubadas, o que é injustificável para alguém que morre de doença respiratória”, assinalou. “A solução não é abrir mais leitos, há limites para isso. É preciso garantir que haja isolamento social de verdade.”
Por sua vez, a representante do Comitê Estadual de Estudos da Mortalidade Materna, Sandra Valongueiro, pontuou que, mesmo antes desta crise sanitária, o País enfrentava dificuldades de reduzir a mortalidade materna para menos de 30 a cada 100 mil nascidos vivos. Em 2018, essa proporção foi de 64 no Brasil e de 73 em Pernambuco. “Temos as questões conjunturais da pandemia, mas não podemos nos esquecer dos problemas estruturais”, frisou.
Relatos

CASO – “Sabemos de uma mãe que deu à luz há 18 dias e o filho ainda não fez o teste do pezinho, nem conseguiu as primeiras vacinas”, contou Liliana Barros. Foto: Nando Chiappetta
As consequências do cenário apresentado pelas médicas e por outros especialistas materializaram-se em depoimentos de profissionais de saúde e cidadãos. Membro da Associação de Mulheres de Bairros, Liliana Barros considera que a superlotação e as dificuldades para se realizar exames viraram regra para mulheres pobres, piorando na crise do coronavírus. “Sabemos de uma mãe que deu à luz há 18 dias e o filho ainda não fez o teste do pezinho, nem conseguiu as primeiras vacinas.”
Obstetra do Hospital Barão de Lucena, no Recife, Lucia Rohr avaliou que destinar o Imip para atender exclusivamente gestantes com Covid-19 agravou a situação nas demais unidades de alto risco. “Em um espaço projetado para seis pacientes, a gente chega a ter mais de 30. Mesmo que essas mulheres conseguissem ficar de máscara o tempo todo em trabalho de parto, a chance de contaminação é enorme, porque elas não são testadas na porta da maternidade”, afirmou. A médica ainda contou ter recebido grávidas desnutridas. “Nunca tínhamos visto isso antes. A condição prolonga o internamento e agrava o esgotamento físico e psíquico das equipes.”
Propostas
Para enfrentar essa realidade, a sociedade civil organizada apresentou algumas sugestões. Entre elas, estruturar as possibilidades de planejamento reprodutivo, capacitar e sensibilizar equipes médicas e rediscutir a rede de atenção ao parto na Capital pernambucana. “Não podemos permitir que um cenário assim se mantenha. As mortes dessas mães são evitáveis, e a priorização disso é necessariamente política. Quando foi preciso, o Poder Público conseguiu montar, rapidamente, estruturas de atendimento para casos de Covid-19”, apontou a médica Sandra Valongueiro.

ATENÇÃO – Segundo Cleonúsia Vasconcelos, Governo do Estado atuou para divulgar riscos da Covid-19 e medidas de proteção para grávidas. Foto: Nando Chiappetta
Distribuir máscaras do tipo N95/PFF2, pagar uma renda mínima para que gestantes e puérperas possam aderir ao isolamento social, dar acesso a testes de Covid-19, garantir pré-natal básico e de alta complexidade em meio à pandemia foram outras das medidas elencadas. Presidente da Comissão de Cidadania, a deputada Jô Cavalcanti, titular do mandato coletivo Juntas, anunciou que formalizará as solicitações em um documento a ser entregue ao Governo e ao Ministério Público de Pernambuco. Por outro lado, parlamentares e demais participantes elogiaram a iniciativa do Estado de vacinar todas as grávidas, mesmo aquelas sem comorbidades.
Integrantes das Secretarias de Saúde do Estado e do Recife citaram ações, já em desenvolvimento, para monitorar e qualificar unidades e equipes de atenção a gestantes. Segundo a gerente estadual de Atenção à Saúde da Mulher, Cleonúsia Vasconcelos, o Governo atuou para divulgar os riscos da Covid-19 e as medidas de proteção para grávidas. Também investiu em testagem e capacitação para atendimento remoto. “Não basta cumprir consultas e ‘cesta’ de exames, os profissionais devem reconhecer sinais de alerta e prover suporte imediato”, enfatizou.
Já a secretária-executiva de Vigilância em Saúde do Recife expôs iniciativas como o aplicativo Atende em Casa e pediu apoio para incentivar as gestantes a se vacinarem. Marcella Abath afirmou, ainda, que será lançado um protocolo de atendimento pré-natal para pacientes com Covid-19 no próximo dia 31, com base no qual as equipes serão capacitadas. “Por estímulo desta audiência, devemos elaborar um plano de enfrentamento das mortes maternas, consolidando todas essas medidas”, acrescentou.
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