A pulverização aérea de agrotóxicos, realizada por aviões e drones, foi tema de audiência pública realizada pela Comissão de Agricultura da Alepe, nesta terça. As falas se dividiram entre aqueles que acreditam que a prática aumenta os riscos dos defensivos para a população e os que enxergam no uso da tecnologia uma forma de reduzir potenciais danos à saúde.
Os agrotóxicos foram classificados como biocidas pela médica e pesquisadora da Fiocruz, Idê Gurgel, porque eles prejudicam não apenas as pragas a que se destinam, mas também os seres humanos. “A literatura é farta, farta. Há décadas de trabalhos científicos que demonstram, denotam, evidenciam os danos à saúde. Eu sou médica e trabalhei muito tempo em hospitais aqui, inclusive da Zona da Mata Norte e Sul, trabalhei em Goiana, trabalhei em Palmares dando plantão, nunca dei um plantão, nunca, para não atender pelo menos um caso grave de intoxicação de trabalhador ou de familiar.”
Puberdade precoce, autismo, cânceres e malformações congênitas foram relacionadas aos defensivos, segundo estudos relatados pela pesquisadora. Ela ainda alertou para a liberação do uso, no Brasil, de substâncias que não podem sequer ser registradas em seus países de origem, e apresentou estudos que revelaram a presença de dezenas de compostos diferentes em uma única amostra de alimentos e da água. Para a pesquisadora, a pulverização de agrotóxicos aumenta a contaminação.
Já o representante do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, Cláudio Júnior, o uso de aeronaves e de drones pode, ao contrário, reduzir os riscos porque, segundo ele, há uma aplicação mais controlada das substâncias. “Quando você aplica com o costal, aquele equipamento nas costas do pequeno agricultor, ele aplica em torno de 200 a 400 litros por hectare, é uma quantidade muito grande. E como é o avião? Dez litros por hectare. Pega um baldinho pequeno, de dez litros, e joga esse baldinho em uma quadra inteira, são 10 mil metros quadrados. Que efeito que dá isso? Então, aqui já vai uma importante informação para o pequeno produtor: utilize drones.”
O aumento na produtividade foi outra vantagem apontada por Cláudio Júnior, que também citou a rastreabilidade das aeronaves, além da responsabilidade técnica de toda a cadeia envolvida. Ele ainda registrou a forte regulamentação do setor e instruiu que as denúncias de irregularidades, como pulverização sobre escolas e nascentes de rio, sejam dirigidas aos órgãos competentes para que sejam apuradas.
O diretor de Defesa e Inspeção Vegetal da Adagro, Jurandir Júnior, concordou que o setor de aviação agrícola é o mais regulado na questão do uso de agrotóxicos, mas analisou que é o menos fiscalizado porque falta fortalecer o poder de polícia das agências. O presidente da Federação de Agricultura e Pecuária de Pernambuco, Pio Guerra, defendeu o uso da tecnologia para aumentar a produção e garantir os empregos gerados pelo agronegócio.
A audiência pública também contou com depoimentos de agricultores familiares sobre os impactos provocados pela pulverização de agrotóxicos promovida em lavouras vizinhas. Lucilene Florentino, do Assentamento Chico Mendes, que abrange os municípios de São Lourenço e Paudalho, contou que a aplicação de defensivos na plantação de cana-de-açúcar do terreno vizinho acabou com sua produção agroecológica. “Eu tinha uma plantação de couve que tinha cinco mil pés de couve. Hoje eu não tenho 100. Acabou minhas hortaliças, as frutas eu não consumo mais, por quê? Porque eu não sei a quantidade de veneno que tem ali.”
Participaram do debate, ainda, deputados estaduais e representantes da Articulação do Semiárido, Comissão Pastoral da Terra, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Fetape. O presidente da Comissão de Agricultura, deputadoDoriel Barros, do PT, disse que o tema será aprofundado em reuniões com governos estaduais, setor produtivo, pesquisadores e agricultores.
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