A distribuição desigual dos casos, óbitos e letalidade da Covid-19 nos bairros do Recife, apontada em estudo do Departamento de Ciências Geográficas da UFPE, foi analisada nessa terça em reunião remota da Comissão de Cidadania da Alepe. Coordenador da pesquisa, o geógrafo Jan Bitoun explicou que o trabalho científico foi motivado pela necessidade de avaliar como a população das comunidades estava sendo atendida na área de saúde, levando em conta a carência de informação nas periferias.
Bitoun afirmou que a conclusão do estudo foi semelhante ao observado com o zika vírus: “Pessoas dessas comunidades tinham dificuldade de acesso ao diagnóstico, e quando chegava a ter o diagnóstico, tinha tendência a ter uma letalidade maior, morrer mais, porque talvez chegasse a um diagnóstico mais tarde que em outros bairros”.
Os pesquisadores da UFPE apontam que nas localidades com muitos assentamentos precários, a dependência de atendimento em hospitais públicos e a limitação do uso de tecnologias digitais e de pacotes de dados acabam restringindo o acesso ao diagnóstico e a consultas remotas, elevando o número de óbitos. O estudo utilizou dados do boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Recife, considerando também o percentual de população negra e renda per capita por estratos de bairros.
Diante das limitações no sistema de saúde para diagnosticar e tratar a doença em cerca de um milhão de pessoas, os pesquisadores questionaram, ainda, se é “razoável e responsável” relaxar as medidas de distanciamento social no Recife. Para Jan Bitoun, uma das ações de enfrentamento mais urgentes é garantir transporte coletivo seguro: “É essencial que os 36 bairros, que representa em torno de 600 mil habitantes, de onde vem o grosso de trabalhadores para o Centro, a partir de 186 linhas de ônibus, que nessas linhas haja alguma medida emergencial urgente, de fretamento de táxi, Uber, quaisquer outros tipos de autocarro para evitar que desde a saída do bairro o pessoal já está lotando o ônibus”.
A professora de Medicina Social da UFPE Bernadete Perez também participou da reunião, representando o coletivo Rede Solidária em Defesa da Vida. Ela analisou que a desigualdade social se manifesta na forma desproporcional de exposição ao vírus, entre a população: “A suscetibilidade, ela é igual do ponto de vista biológico, né, mas a possibilidade, a partir dos modos de andar a vida, dos modos de trabalhar, dos modos de existir, dos modos de habitar, dos modos de viver nos territórios, faz com que a gente responda, se proteja ou se exponha de uma maneira completamente diferente. Então nós estamos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco”.
A presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara de Vereadores do Recife, Michele Collins, esteve presente à reunião. A parlamentar apontou a necessidade de políticas públicas mais efetivas para atender as populações vulneráveis durante a pandemia. Michele também registrou o aumento dos casos de abuso de crianças e adolescentes, e de violência contra idosos e mulheres no período.
A presidente da Comissão de Cidadania da Alepe, deputada Jô Cavalcanti, do mandato coletivo Juntas, do PSOL, informou que os dados acadêmicos sobre o impacto da Covid-19 nas periferias serão reunidos em um relatório do Colegiado, contendo recomendações ao Governo do Estado. O debate dessa terça foi sugerido pelo deputado Pastor Cleiton Collins, do PP.
Durante a reunião remota, a Comissão ainda aprovou projetos, como a proposta com o objetivo de combater a disseminação de notícias falsas, discurso de ódio ou ofensas aos direitos humanos na publicidade governamental. A matéria é baseada em proposição de autoria do deputado Isaltino Nascimento, do PSB, que recebeu substitutivo da Comissão de Justiça.
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