Leis aprovadas na Alepe estimulam telhados verdes nas cidades pernambucanas

Em 15/05/2026 - 08:00
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SIMULAÇÃO – Imagem criada com inteligência artificial mostra Recife com mais telhados verdes. Foto orignal: Canva

O crescimento urbano tem transformado a paisagem das cidades brasileiras. Prédios e construções ocupam, cada vez mais, os espaços antes cobertos por áreas verdes. Esse avanço acelerado e, muitas vezes, sem planejamento, gera impactos ambientais significativos, contribuindo para a ocorrência de eventos climáticos extremos, ilhas de calor e enchentes.

Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o Brasil já é um país majoritariamente urbano: 87% da população vive em cidades. Em Pernambuco, cerca de 84% dos habitantes estão concentrados nas áreas urbanas.

Diante desse cenário, especialistas alertam sobre a necessidade de repensar o modo como as cidades se expandem, buscando alternativas que conciliem desenvolvimento e preservação ambiental. 

Desenvolvimento

A pesquisadora e professora adjunta do Núcleo de Recursos Hídricos da Universidade de Pernambuco (UPE) Micaella Moura alerta que, por décadas, o modelo de desenvolvimento urbano foi primordialmente higienista: 

ESPECIALISTA – Micaella Moura defende modelos urbanos mais sustentáveis para reduzir vulnerabilidades. Foto: Gabriel Costa

“Era um modelo de impermeabilização em massa que buscava acelerar o escoamento das águas e transferi-las para a jusante [vazante da maré] mais à frente. Esse escoamento excessivo acabou desencadeando problemas de alagamentos.”

Para a especialista, é preciso buscar modelos sustentáveis que fomentem a resiliência urbana frente às mudanças climáticas. “Isso é primordial para que a gente reduza as vulnerabilidades socioambientais, especialmente das populações que estão mais expostas a esse tipo de dano”, afirma.

Telhados verdes

Visando reduzir esses impactos, os chamados “telhados verdes” – coberturas de vegetação sobre as lajes de construções –, podem ser parte da solução. Criada na Alemanha, a técnica já é implementada em diferentes países e em algumas cidades brasileiras.  

O engenheiro agrônomo e paisagista Marcelo Kozmhinsky, autor de um dos primeiros livros sobre o tema no Brasil, explica as vantagens que esse tipo de cobertura traz para os próprios edifícios e o seu entorno. 

“Uma delas é a redução da temperatura no imóvel, porque a vegetação absorve o calor da radiação do sol. Com isso, diminui também o uso do ar condicionado. E tem ainda a maior absorção da água da chuva e o aumento da umidade relativa do ar nesse ambiente”. 

Lei

PROJETO – Técnica ajuda a reduzir o calor e melhora a drenagem e a qualidade de vida nas cidades. Foto: Canva

Em Pernambuco, a Lei nº 18.875/2025 regulamenta a implementação dos telhados verdes. De acordo com a norma, todos os novos projetos de edificação com mais de quatro pavimentos devem prever o revestimento de vegetação sobre a laje de concreto, cobertura, estacionamento ou piso de área de lazer. O descumprimento da norma, de autoria da deputada Simone Santana (PSB), pode levar à não liberação de licenciamentos para a construção e multas de R$ 1 mil a R$ 100 mil.

Micaella destaca a importância da medida. “Quando substituímos essa selva de pedra por uma camada de vegetação, substrato, camada filtrante e drenagem, criamos uma zona verde permeável que antes não iria permitir que a água fosse retida naquele lote. E se um edifício já contribui, imagine isso multiplicado ao longo de todo o território urbano? É extremamente benéfico”.

Bem-estar

Já Kozmhinsky ressalta que, além dos benefícios ambientais, os telhados verdes também ajudam a promover a sensação de bem estar.

BENEFÍCIOS – O administrador Manoel Borba Filho (esq.) e o paisagista Marcelo Kozmhinsky destacam bem-estar proporcionado pelas coberturas vegetais. Foto: Gabriel Costa

“Quando a gente traz um verde para uma edificação, a sensação de bem estar que proporciona às pessoas que frequentam esse ambiente é fantástica, porque a gente está devolvendo à cidade e à natureza um pouco daquilo que a gente, como ser humano, retirou”.

Foi o que aconteceu em um edifício que abriga empresas da área de tecnologia no centro do Recife. O administrador do imóvel, Manoel Borba Filho, conta que implementou uma cobertura verde no prédio antes mesmo da existência da lei, pensando no bem estar das pessoas que trabalham no local.

“É um espaço bastante frequentado pelas pessoas que trabalham aqui e até mesmo por pessoas de fora que querem conhecer o local, porque não é tão comum você ter assim um espaço verde em cima de um edifício”, observou. “Espero que, com a legislação, isso se torne mais comum, porque são espaços bonitos, agradáveis e não tem por que não utilizar isso de uma forma mais frequente”.

Política estadual

Além da lei que regulamenta os telhados verdes, também foi criada uma política estadual de incentivo à implementação desse tipo de cobertura em Pernambuco (Lei nº 18.996/2025). A medida, apresentada por Doriel Barros (PT) e também aprovada em 2025, prevê incentivos econômicos para imóveis já existentes que decidirem adotar os telhados verdes, além do desenvolvimento de programas de capacitação e assistência técnica; e do estabelecimento de parcerias para fomentar estudos e projetos sobre o tema.

Para a pesquisadora da UPE, iniciativas como essa, com a participação ativa do poder público, é fundamental para melhorar a qualidade de vida da população. “A legislação e as políticas públicas são primordiais para que esse tipo de tecnologia se consolide e faça parte, efetivamente, do cenário urbano pernambucano”, frisou.