Doença silenciosa, subnotificada e, muitas vezes, negligenciada, a endometriose afeta entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva no mundo. “Eu sinto dores muito fortes quase o mês inteiro, mas durante o período menstrual a dor fica insuportável”, conta a dona de casa Fabiana Ferreira, 42 anos.

PACIENTE – Fabiana Ferreira relata “dores muito fortes, quase insuportáveis”. Foto: Giovanni Costa
A paciente, que aguarda tratamento no sistema público, relata que o quadro foi inicialmente confundido com as consequências de uma cesariana. Quatro anos passaram até o diagnóstico correto – e, enquanto isso, a doença avançou.
“Nenhum tratamento foi feito para melhorar o que sinto. Orientada por uma conhecida, procurei o Cisam (Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros), no Recife, mas ainda assim não fui atendida pelo especialista”, conta Fabiana, que é de Arcoverde, no Sertão do Moxotó.

CULTURA – “Mulheres são levadas a acreditar que dor ao menstruar é normal, que elas precisam aguentar”, lamenta o médico Mauro Aguiar. Foto: Giovanni Costa
Para o chefe do setor de videocirurgia ginecológica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE), Mauro Aguiar, a demora no diagnóstico é intensificada por uma questão cultural. “A dor ao menstruar é algo que as mulheres são levadas a acreditar que é normal e que elas precisam aguentar”, observa.
Isso faz com que sintomas progressivos — dores que pioram a cada ciclo menstrual — sejam ignorados até se tornarem insuportáveis. “Essa mentalidade existe no mundo inteiro. Mas dores incapacitantes não são normais”, reforça o especialista.
Legislação
A endometriose é uma doença inflamatória crônica que ocorre quando o tecido que reveste o interior do útero (endométrio) cresce fora dele. A situação é crítica para as mulheres com a de tipo profunda ou multivisceral — forma mais agressiva, que invade órgãos como o intestino e o ureter. Para esses casos, a cirurgia exige uma equipe com ginecologistas, coloproctologistas e urologistas.

MARCO – Iniciativa de Socorro Pimentel criou a Política Estadual de Enfrentamento à Endometriose. Foto: Roberta Guimarães
Na tentativa de lançar luz sobre o problema, a deputada Socorro Pimentel (União) propôs a criação de uma Política Estadual de Enfrentamento à Endometriose (Lei nº 18.316/2023). Marco legal na saúde pública de Pernambuco, a norma foi, recentemente, modificada e reforçada pelos dispositivos da Lei nº 19.078/2025, de iniciativa da deputada Delegada Gleide Ângelo (PSB).
Socorro Pimentel defende o acesso a um serviço de saúde rápido e eficiente para todas as mulheres que sofrem com o problema. “É uma doença crônica que pode causar incapacidade e redução na qualidade de vida das mulheres afetadas, o que justifica a atuação dos entes federativos no enfrentamento”, destacou.

DIAGNÓSTICO – Delegada Gleide Ângelo acrescentou diretrizes para garantir o acesso a exames específicos. Foto: Anju Monteiro
Por sua vez, Gleide Ângelo acrescentou diretrizes para garantir o acesso a exames específicos para o diagnóstico precoce, como a ultrassom endovaginal e a ressonância magnética pélvica, além de suporte psicológico. “Isso é essencial devido aos impactos emocionais profundos que a endometriose pode causar, especialmente em casos relacionados à infertilidade”, justificou.
Tratamento
Entre a letra da lei e a realidade dos ambulatórios, contudo, existe um abismo marcado por diagnósticos tardios, falta de financiamento e filas de espera por cirurgias que podem chegar a seis anos em Pernambuco. Globalmente, estima-se que o atraso entre o início dos sintomas e o diagnóstico definitivo varie de sete a dez anos.
Ginecologista e preceptor do Cisam, Hélio Costa pontua a existência de barreiras estruturais. “A certeza do diagnóstico exige exames de imagem especializados, como o ultrassom com preparo intestinal, ou procedimentos cirúrgicos, como a videolaparoscopia. Entretanto, os recursos na rede básica de saúde são escassos e não é possível garantir essa investigação a todas as pacientes.”
Costa assinala ainda que, embora o tratamento clínico (hormonal) seja acessível, situações que exigem cirurgia esbarram na falta de centros especializados. “Aqui no Estado, só são operadas no serviço público do Hospital das Clínicas”, afirma o médico, pontuando a fila gerada pela centralização.
A cabeleireira Michelle Matos, 33 anos, foi diagnosticada com endometriose multivisceral e já não consegue trabalhar por conta da doença. “Estou aguardando esse procedimento faz alguns anos, mas agora estou perto de resolver essa situação e seguir a minha vida”, comemora.

ESPERA – Michelle Matos aguarda cirurgia para poder voltar a trabalhar como cabeleireira. Foto: Giovanni Costa
Infertilidade
A norma estadual prevê, ainda, o atendimento multidisciplinar e a integração das ações de enfrentamento. Além disso, as diretrizes incluem a divulgação de informações sobre o tratamento da infertilidade associada à endometriose.
Esse é, para muitas mulheres, o aspecto mais devastador. Chefe do serviço de reprodução humana do HC, o médico Cláudio Barros alerta que cerca de 40% das pacientes com endometriose apresentam infertilidade. Embora muitas consigam engravidar naturalmente ou com tratamentos simples, cerca de 10% a 15% necessitarão de técnicas de alta complexidade, como a fertilização in vitro (FIV).

DADOS – Segundo Cláudio Barros, cerca de 40% das pacientes apresentam infertilidade. Foto: Giovanni Costa
O drama intensifica-se, segundo ele, porque o SUS carece de estrutura em Pernambuco para oferecer o tratamento necessário, restando às pacientes buscar clínicas privadas ou programas de doação compartilhada de óvulos.
Barros alerta, ainda, para os riscos de cirurgias realizadas por profissionais não especializados. “Ao tentar remover endometriomas nos ovários, cirurgiões inexperientes podem comprometer a reserva ovariana, levando à infertilidade definitiva”, observa o médico.