Bancadas evangélicas elegeram prefeitos em grandes cidades

Em 02/02/2017 - 17:50
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Olinda - Eleito em outubro passado, o ex-deputado Professor Lupércio assumiu a Prefeitura de Olinda, em janeiro. Foto: Rinaldo Marques

OLINDA – Eleito em outubro passado, o ex-deputado estadual Professor Lupércio assumiu a Prefeitura de Olinda, em janeiro. Foto: Rinaldo Marques

Nas últimas eleições municipais, lideranças protestantes ampliaram seu espaço de atuação política e venceram a corrida para prefeituras importantes do País. Desde o começo deste ano, a gestão da cidade do Rio de Janeiro, segunda maior metrópole brasileira, está a cargo de Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e eleito senador por duas vezes, em 2002 e 2010.

Em Pernambuco, o mesmo  acontece em dois municípios da Região Metropolitana do Recife. Olinda e Jaboatão dos Guararapes têm novos prefeitos cujas trajetórias são marcadas pela participação em bancadas parlamentares evangélicas. Na primeira cidade, venceu o ex-deputado estadual Professor Lupércio (SD). A segunda começa a ser administrada pelo ex-deputado federal Anderson Ferreira (PR).

“Não posso negar que minha vitória representa um ganho de influência dos evangélicos”, reconhece Lupércio, que enxerga na fé uma aliada contra o agravamento da violência, da intolerância e da dependência química. “Acho que as pessoas precisam da religião, necessitam prestar gratidão a Deus, seja ele qual for, e inclusive sou simpático às aulas de religião. Mas o que tenho colocado para a comunidade de Olinda é que não iremos misturar as coisas: sabemos que o Estado é laico e não governaremos apenas para um segmento”, garante.

A postura defendida pelo prefeito reproduz a impressão de analistas. Na opinião do antropólogo Cleonardo Barros, que pesquisa o assunto na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o êxito político dessas lideranças não é motivado simplesmente pela origem religiosa do candidato. “Além de existir um clamor por aqueles que não se assumem como políticos profissionais, fica evidente uma inabilidade dos concorrentes em se comunicar com setores mais pobres da população, que têm encontrado proteção nas igrejas”, comenta. 

“Além de existir um clamor por aqueles que não se assumem como políticos profissionais, fica evidente a inabilidade dos concorrentes em se comunicar com setores mais pobres, que encontram proteção nas igrejas.”

Cleonardo Barros, antropólogo

O sucesso de líderes pentecostais em disputas pelo Executivo, compreende o cientista político Joanildo Burity, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), demonstra a capacidade que esses atores alcançaram para construir coalizões e elaborar discursos que ressoam para além de seus seguidores. O pesquisador também cita que, devido aos altos índices de abstenção registrados nas votações, não é possível afirmar se esse fenômeno se configura numa tendência para os próximos pleitos.

“Não é um projeto exatamente religioso que alçou esses políticos à condição de prefeitos”, registra. “Ninguém está só em política, e as costuras para se chegar a um cargo majoritário implicam uma ampla negociação de agendas possíveis. Não dá pra imaginar que os evangélicos irão se impor no grito.”

Já para o professor Pedro Cavalcanti Soares, da Faculdade Damas, a possibilidade que políticas públicas no âmbito municipal sejam fundamentadas em convicções religiosas é “constrangedora para uma República que se diz secular”. Na avaliação do cientista político, o enfrentamento de ideias entre pentecostais e seus opositores arrisca tomar proporções maiores. “O debate sobre as relações entre política e religião, entre democracia e cristianismo, pode se expandir.”