
FERROVIA – Debate reuniu parlamentares, gestores e representantes da sociedade civil. Foto: Cecília Nascimento
A Frente Parlamentar em Defesa da Ferrovia Transnordestina da Alepe debateu nesta segunda (13) os entraves e perspectivas para a retomada do empreendimento, considerado um dos mais importantes projetos de infraestrutura do Nordeste.
Idealizada para integrar o interior do Nordeste aos portos e facilitar o escoamento de grãos, minérios e outros produtos, a Transnordestina teve suas obras iniciadas nos anos 2000, mas acabou paralisada há mais de uma década. O projeto enfrentou problemas financeiros, dificuldades de licenciamento ambiental, questões fundiárias e sucessivas revisões de projeto, segundo a antiga concessionária, a TSLA, que devolveu a concessão em 2022.

FERROVIA– Para João Paulo, empreendimento significa integração, redução de custos e empregos. Foto: Cecília Nascimento
Coordenador da Frente, o deputado João Paulo (PT) classificou a ferrovia como uma obra estruturante, ressaltando que sua paralisação trouxe impactos logísticos ao Estado. O parlamentar também criticou entraves orçamentários e políticos, defendendo maior prioridade na destinação de recursos para acelerar as obras.
“A conclusão do trecho até Suape não é apenas uma questão de infraestrutura, é uma transformação estrutural. Significa integração do interior produtivo ao litoral, redução de custos logísticos e geração de emprego, renda e oportunidades. É justiça territorial”, afirmou.
Retomada
O Governo Federal iniciou, em 2025, a licitação para retomar as obras, com investimento inicial de cerca de R$ 450 milhões pelo Novo PAC. A Infra S.A., estatal vinculada ao Ministério dos Transportes, venceu o processo e assumiu o trecho pernambucano. Sob sua responsabilidade, está o segmento de aproximadamente 544 km de extensão que liga o município de Salgueiro (Sertão Central) ao Porto de Suape.

SITUAÇÃO – André Ludolfo, da Infra S.A., apresentou planejamento do trecho Salgueiro–Suape. Foto: Cecília Nascimento
O modelo adotado prevê a divisão da ferrovia em múltiplos lotes, permitindo a contratação simultânea de diferentes trechos para acelerar a execução. A expectativa é que as licitações avancem até 2026, consolidando a retomada do projeto em Pernambuco.
O representante da Infra S.A., André Ludolfo, apresentou à frente parlamentar um panorama da situação atual da obra. Segundo ele, o segmento Salgueiro–Suape (SPS) teve apenas 38% de execução pela antiga concessionária.
Há ainda entraves fundiários e indefinições de traçado, sobretudo nos trechos finais próximos a Suape, o que gera preocupação em relação às comunidades locais que podem ser afetadas por desapropriações. Também foi publicado o primeiro edital de obras, referente ao lote SPS 4, com previsão de novos editais até o fim do processo de estruturação.
Privatizações
O superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, resgatou o histórico de enfraquecimento do sistema ferroviário brasileiro após as privatizações do início dos anos 2000 e afirmou que a Transnordestina voltou a ganhar impulso no atual governo federal. Também defendeu unidade política para viabilizar sua conclusão.

SUDENE – Francisco Alexandre defendeu unidade política. Foto: Cecília Nascimento
Já o ex-prefeito de Bonito, Laércio Queiroz, representante do Consórcio de Municípios do Agreste e Mata Sul (Comagsul), fez críticas à falta de recursos e à atuação da classe política pernambucana. Segundo ele, o orçamento atual previsto para a obra é insuficiente e há necessidade de mobilização para garantir investimentos mais robustos.
“Enquanto o Ceará está funcionando já agora, a nossa perspectiva de funcionamento é 2030, se tudo der certo”, pontuou.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Bruno Veloso, atribuiu o atraso a decisões políticas e interesses econômicos ao longo dos anos, destacando a priorização de outros trechos, especialmente em direção ao Ceará. Segundo ele, isso enfraqueceu a integração logística de Pernambuco e o potencial do Complexo de Suape.
Representantes da sociedade civil cobraram maior participação nas decisões e comentaram os impactos sociais e ambientais da obra. Cristina Santana, líder comunitária de Ipojuca, defendeu a inclusão das comunidades afetadas nas discussões sobre os traçados, especialmente nos trechos ainda indefinidos.

IMPACTOS – Marinalva Maria, do Quilombo Ilha de Mercês, denuncia prejuízos ambientais. Foto: Cecília Nascimento
Na mesma linha, Ednaldo Rodrigues, presidente da Associação do Cabo de Santo Agostinho; Edson Gomes, presidente da Associação de moradores da Ilha de Tatuoca, e Marinalva Maria, do Quilombo Ilha de Mercês, destacaram preocupações com desapropriações, perda de meios de subsistência e danos ambientais, sobretudo em áreas de mangue e comunidades tradicionais.
“Tiraram de nós a nossa pesca. Não tem mais sururu, marisco, camarão. Tiraram nossos direitos de ganhar a vida com isso. E esse minério vai terminar de acabar com tudo”, expressou Marinalva.
Ao final, o deputado João Paulo anunciou um requerimento para a governadora Raquel Lyra sugerindo a criação de um grupo de trabalho para acompanhar as obras da Transnordestina.
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