Eliza Kobayashi
O desperdício de alimentos ainda é uma realidade a ser combatida no Brasil. De acordo com um estudo realizado pelo Instituto Pacto contra a Fome, mais de 55 milhões de toneladas são desperdiçadas anualmente no país.
Cerca de um terço desse total é perdido nas fases de processamento e comercialização dos produtos. As principais causas disso são o mau planejamento e gerenciamento de estoque, o descarte inadequado de produtos imperfeitos e o manuseio incorreto ou excessivo do alimento.
Por outro lado, os últimos dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que, apesar de o Brasil ter saído do Mapa da Fome novamente em 2025, 13,5% da população ainda se encontra em situação de insegurança alimentar grave – quando as pessoas ficam sem comida ou passam um dia ou mais sem comer –, ou moderada, se a qualidade ou quantidade de alimentos for baixa.

INICIATIVA – Romero Albuquerque apontou impactos sociais, financeiros e ambientais da norma. Foto: Evane Manço
Em Pernambuco, uma norma em vigor desde 2019 regulamenta a doação por estabelecimentos comerciais de produtos alimentícios aptos para consumo. Os itens podem ser destinados a instituições que apoiam pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, desde que se cumpra algumas regras.
As diretrizes estão contidas na Lei nº 16.713, de iniciativa do deputado Romero Albuquerque (PP). Ao propor a medida, o parlamentar destacou os impactos social e financeiro positivos, além da “diminuição do impacto negativo ambiental ao serem destinados excedentes de alimentos para consumo ao invés de serem lançados em aterros sanitários”.
As regras valem para restaurantes, padarias, supermercados, feiras, mercados populares e centrais de distribuição. Podem ser doados ou reutilizados alimentos que não foram consumidos e estiverem adequadamente conservados. Também aqueles fora dos padrões para comercialização, mas aptos para consumo, desde que sejam seguidas as boas práticas operacionais e de manipulação de alimentos, entre outros programas de qualidade alimentar estabelecidos pela legislação.

GRATIDÃO – “Sentimos muita felicidade por estar contribuindo”, diz Ana Beatriz da Silva. Foto: Gabriel Costa
Responsabilidade social
Um supermercado na Zona Sul do Recife dá exemplo. A cada semana, o estabelecimento destina 500 quilos de alimentos que iriam para o lixo para uma instituição que oferece marmitas e produtos alimentícios a pessoas em situação de rua ou extrema pobreza.
“Foi o jeito que encontramos de atrelar o nosso compromisso social com a ajuda às pessoas que mais precisam. Muitas vezes, frutas e legumes que estavam com pouco valor de venda por pequenos machucados, mas estavam próprios para o consumo, acabavam sendo descartados porque não estavam adequados para a venda aqui na loja”, explica a representante do Departamento Comercial do mercado, Ana Beatriz da Silva.

VOLUNTARIADO – Instituto Vizinhos Solidários recebe alimentos amassados, mas bons para consumo. Foto: Gabriel Costa
Para a gestora, a legislação sobre o tema é fundamental para guiar os comércios que querem fazer doações. “A regulamentação é necessária porque, dessa forma, as empresas têm uma base legal para agir e fazer esses tipos de doações. É muito importante ajudar o próximo sabendo que está tudo dentro da lei”, opinou.
A instituição beneficiada pelas doações do supermercado retira os alimentos no local semanalmente com a ajuda de voluntários. Com os produtos, prepara e distribui cerca de 120 marmitas solidárias por dia para pessoas em situação de rua. Também organiza um mercado solidário para pessoas que vivem em pobreza extrema.

MARMITAS – Maria Eduarda ressalta qualidade dos alimentos utilizados nas refeições. Foto: Reprodução TV Alepe
“Recebemos aquele alimento que está um pouco amassado ou mexido, mas que é bom para consumo. Tanto que a gente produz nossa própria marmita com esses itens”, conta a presidente do Instituto Vizinhos Solidários, Maria Eduarda Fernandes.
Os voluntários da instituição se organizam em grupos para levar os alimentos a diferentes bairros da capital pernambucana. A corrente do bem acaba beneficiando não apenas quem precisa, mas todas as partes envolvidas. “A gente sente gratidão e muita felicidade por estar contribuindo com a sociedade”, reforça Ana Beatriz.