Alepe debate tarifa zero e qualidade do transporte público do Grande Recife

Em 20/08/2025 - 15:57
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As condições do transporte público na Região Metropolitana do Recife (RMR) foram alvo de discussão em audiência promovida pela Comissão de Administração Pública da Alepe, nesta quarta (20). Trabalhadores do setor, militantes e representantes de empresas e do Governo Estadual debateram a qualidade do serviço.

INICIATIVA – Audiência pública foi solicitada pelo deputado João Paulo. Foto: Nando Chiappetta

A possibilidade de implementar a tarifa zero foi uma das principais questões abordadas. De acordo com o coordenador técnico do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de Pernambuco (Urbana-PE), Bernardo Braga, 50% dos passageiros transportados na RMR já contam com gratuidade integral ou parcial. Aqueles que desembolsam o valor integral da passagem correspondem a 17% do total.

Ele afirmou que, dos 127 municípios brasileiros que já adotaram a tarifa zero no transporte público, apenas 12 possuem mais de 100 mil habitantes. “Somando essas 12 cidades, temos uma população de 1,97 milhão de habitantes e uma frota de 424 ônibus. A RMR tem 3,78 milhões de moradores e frota de 2.225 veículos. Não é possível simplesmente transpor resultados para um sistema mais complexo e mais caro”, ressaltou.

MOBILIDADE – Matheus Freitas defendeu subsídios para o sistema. Foto: Nando Chiappetta

Entre 2023 e 2025, a quantidade de passageiros transportados diariamente pelo Grande Recife Consórcio de Transporte praticamente dobrou: passou de 750 mil para 1,3 milhão. Os números foram apresentados pelo diretor presidente da entidade, Matheus Freitas.

Ele informou que o custeio do sistema em 2024 foi de aproximadamente R$ 1,3 bilhão. A arrecadação tarifária soma R$ 900 milhões ao ano, e o Governo de Pernambuco faz um aporte anual de R$ 360 milhões, o que representa 28,5% do total. Matheus Freitas defendeu que todos os entes federativos destinem subsídios ao transporte público.

“Na RMR, apenas o município de Camaragibe contribui para o sistema. Todos os investimentos partem do Estado e da União, no caso do metrô. Uma das soluções para a questão da política tarifária passa por um pacto com todas as cidades, o Estado e a União, para que se tenha mais recursos”, avaliou o gestor.

“Isso é uma contradição, porque quem lucra com o valor da passagem de ônibus são grandes empresas, e ainda quem custeia é o Estado”, considerou a deputada Rosa Amorim (PT). Ela ainda afirmou que o sistema de transporte público passa por uma crise. “Temos menos ônibus circulando, frota sucateada e passagens cada vez mais caras”, descreveu a parlamentar.

Metrô

CRISE – “Temos menos ônibus, frota sucateada e passagens cada vez mais caras”, apontou Rosa Amorim. Foto: Nando Chiappetta

O processo de privatização do metrô do Recife também recebeu críticas. O vice-presidente do Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (Sindmetro-PE), Thiago Mendes, se posicionou contra a medida. A concessão foi autorizada pelo Governo Federal este ano. Ele citou exemplos que considera mal sucedidos, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro.

“O laboratório da privatização do metrô, que foi o Rio, deu errado. Prometia alcançar um milhão de passageiros e, depois de 20 anos, não atingiu esse objetivo. E ainda tem a passagem mais cara do Brasil”, analisou. A deputada Rosa Amorim, o deputado João Paulo (PT) e a vereadora do município de Moreno Marilia Rufino (PT) também foram contrários à privatização do metrô.

Morcegamento

SURF – Roberto Carlos Torres relatou episódios de agressão a motoristas. Foto: Nando Chiappetta

O presidente do Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco (Sintro-PE), Roberto Carlos Torres, falou sobre as dificuldades enfrentadas pela categoria. Ele comentou as práticas de “morcegamento” – quando as pessoas pegam carona se pendurando na lateral dos ônibus – e de “surf” – quando sobem no teto dos veículos.

Torres apresentou um vídeo com imagens de boletins de ocorrência de agressão a motoristas. “Quando o condutor pede para que esses jovens desçam do ônibus, para que parem aquele ato, muitas vezes são apedrejados, ameaçados, xingados. E, quando os jovens caem do veículo, o motorista ainda é responsabilizado”, relatou.

RECEITAS – Promotor Leonardo Caribé apoiou a proposta de tarifa zero. Foto: Nando Chiappetta

O promotor de Justiça Leonardo Caribé, que atua na Promotoria de Transportes da capital, informou que há ações voltadas para a prevenção de surf e morcegamento.  “Não é uma questão de repressão, mas de educação, envolvendo a família e a escola”, defendeu. Ele também comentou a evasão de receitas e defendeu a tarifa zero como saída para o problema. “A partir do momento em que você zera a tarifa, não existe mais necessidade de combater a evasão.”

João Paulo, que solicitou a audiência pública, anunciou que pretende realizar viagens para conhecer experiências com a tarifa zero no Brasil. “Podemos fazer uma visita a pelo menos dois estados que têm avançado muito nessa linha: Minas Gerais e Rio de Janeiro, na cidade de Maricá”, comunicou o parlamentar.

Também participaram da audiência pública o gerente geral do Centro Integrado de Operações de Defesa Social (Ciods) da Secretaria de Defesa Social (SDS-PE), coronel Alexandre Tavares, além do deputado Joaquim Lira (PV).