
VIRTUOSE – O músico Amaro Freitas só tem recebido elogios desde que lançou, em novembro de 2016, o disco Sangue Negro. Foto: Alepe
Nascido no Recife em 1991, o músico Amaro Freitas só tem recebido elogios desde que lançou, em novembro de 2016, o álbum independente Sangue negro. Revelação como pianista por ter renovado a cena de música instrumental do Brasil ao tocar jazz de forma virtuosa com influências de ritmos nordestinos, Amaro extrapolou as fronteiras do Brasil e acabou contratado pelo selo inglês Far Out Recordings, pelo qual lançou o segundo álbum, Rasif. O programa Em Discussão, da TV Alepe, entrevistou o artista nesta edição, que falou sobre carreira, jazz, música, além do novo trabalho. Assisti o vídeo aqui na íntegra.
Em Discussão – Como o piano aparece na sua vida e como foi sua formação musical?
Amaro Freitas – O piano apareceu na minha vida tardiamente, mas eu comecei tocando teclado na igreja. O meu pai, Jeremias, não é um músico profissional, mas toca vários instrumentos e sempre foi ‘fissurado’ nessa coisa de banda de igreja. Minha mãe canta, então venho de uma família um pouco musical. Meu pai me ensinou a tocar bateria, só que os meninos da igreja queriam todos tocar esse instrumento, por conta da altura do som, então ele me perguntou: “Você não quer tentar tocar teclado?” Comecei e fui me apaixonando por aquilo. Aos 15 anos, entrei no Conservatório Pernambucano de Música, mas, em razão de dificuldades financeiras, só consegui estudar lá por seis meses. Nesse período, ganhei um DVD de Chick Corea, um grande pianista de jazz americano, e, a partir daí, começou meu interesse pela música instrumental. Não conhecia muito ainda da cultura pernambucana, do quanto somos ricos em variedades de ritmos e melodias e de história também, e isso despertou uma coisa em mim: que eu precisava trabalhar para conseguir manter os meus estudos e ser alguém. Então, fui trabalhar vendendo pão, depois num call center e, assim, consegui manter os estudos de música. Com o tempo, observei que existe um mercado de piano, em bares, restaurantes… e conheci um cara que me convidou pra tocar no Interior. Comecei a tocar piano num restaurante em Gravatá, comprei um piano digital, fiquei morando lá e continuei estudando todos os dias e tocando. Quando voltei, comecei a tocar em outros lugares, mas também comecei a fazer o curso de Produção Fonográfica, onde tive contato com o cenário de jazz da nossa cidade. O coordenador Ricardo Maia, grande professor, abriu meus horizontes. O primeiro disco, Sangue Negro, aconteceu graças a muito trabalho (tocando piano em restaurantes).
ED – Vamos falar um pouco sobre o seu disco novo, intitulado Rasif. Qual é a sua proposta e como foi a produção e a gravação desse trabalho?
Amaro Freitas – Eu poderia dizer que esse disco mostra uma vivência do nosso trio, desde quando foi lançado Sangue Negro, e todo esse processo que a gente viveu junto. As composições foram tocadas nos shows anteriores ao lançamento do Rasif, e elas chegam ao disco maduras. Esse trabalho tem a participação de Henrique Albino, de Jean (baixo acústico), mantendo trio, e de Hugo Medeiros (bateria). As composições que reverberam o que vivi durante esse período também… A gente vai ter uma homenagem ao coco de Arcoverde. A música não tem imagem, é, por si só, a música, o som, mas, na nossa condição humana tentando representar um imagem, tem Aurora, que representa o dia amanhecendo, a parte da tarde e o dia indo embora. Então, o disco tem essa composição diferente, sabe? Sobre a palavra Rasif, eu a conheci no livro de Marcelino Freire. Esse nome é árabe e dá origem ao nome Recife, sabe? Marcelino tem todo um trabalho de pesquisa e, nessa música, tento simbolizar o mar quebrando nos arrecifes, e Rasif, na tradução, significa terreno pavimentado, rochoso, pedras. E Pernambuco significa mar que arrebenta, em tupi. Eu queria representar esse mar arrebentando nas pedras, porque o mar arrebentando nas pedras é como uma palma. Às vezes, ela pega em cheio e, às vezes, não.
ED – Sinto muita complexidade na tua música. Por exemplo, nem sempre é fácil marcar o tempo dela, não é uma música que imediatamente está pronta para um ouvinte comum. Como é executar essa música para as audiências em geral?
Amaro Freitas – Eu acho que a gente tem pouca oportunidade para esse tipo de trabalho… em todos os lugares em que toquei, todo o mundo se emocionou muito, porque, quando entro no palco, entro para me entregar (os músicos também), para me conectar, para fazer aquilo ali valer a pena. Tem que ter um sentido, não é dinheiro, não é porque eu tô tocando num lugar com 15 mil pessoas, não é isso, eu quero me conectar com essas pessoas e a minha oportunidade é através da música. A gente fez uma turnê agora na Europa e, na Alemanha, foi casa lotada, pessoas saindo chorando, emocionadas, dizendo que nunca viram um jazz desse jeito, que as composições são muito originais, que sentiram uma coisa única. Isso para mim é muito surpreendente, porque, na minha vida toda, ouvi que não dava para viver de música instrumental, que música não é trabalho. Então, é possível quebrar essas barreiras, ver que dá para viver de música instrumental e se conectar através dela… A quantidade de ouvintes que tenho no Spotify, mensalmente, gira em torno de 28 a 30 mil pessoas, você sabe dos compartilhamentos, matérias e a quantidade de curtidas que tem no perfil… enfim, acho que a música está aí para se conectar, sem preconceito, e acho que a experiência tem sido muito positiva.
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