CPI inicia investigação com oito depoimentos

Em 09/04/2003 - 00:00
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Os depoimentos da dona de casa Vera Lúcia Ferreira Batista e do estudante Gleidson Dias Ferreira podem não ter acrescentado muito à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Roubo de Cargas e Tráfico de Drogas, mas chamaram a atenção dos deputados quanto ao esquema de comunicação utilizado por detentos do Presídio Anibal Bruno. Por meio de telefone, eles conseguiam entrar em contato com pessoas de várias cidades do País, inclusive, de outros presídios.

Os próximos depoimentos estão marcados para amanhã, às 9h30.

Vera e Gleidson, mãe e filho, foram os primeiros a depor na CPI, que começou, ontem, a ouvir pessoas envolvidas ou suspeitas de ligação com o crime organizado no Estado. Ao todo, oito pessoas prestaram informações, dentre elas, seis que se encontram detidas, cinco sob acusação e uma já condenada a oito anos de prisão. Apenas um dos convocados não compareceu à CPI.

Para o presidente da comissão, deputado Pedro Eurico (PSDB ), esses primeiros relatos já demostraram que o crime organizado está ramificado em todo o País.

“Ficamos surpresos com essa forte conexão, através de uma linha telefônica em Pernambuco”, esclareceu Eurico.

O sistema que permitia o contato de presos com outras pessoas fora do presídio era simples. Através de uma central telefônica instalada na casa de Vera, em Paulista, os presos “Marcílio” e “Carlinhos” conversavam com várias pessoas, inclusive com “Maninho da Pistola”, preso em Canhotinho. A linha funcionou durante 40 dias. Nesse período, foram recebidas mais de 500 ligações a cobrar e realizadas mais de 600 do aparelho. Só para a cidade de Teófilo Otoni, em Minas Gerais, foram mais de cem, além de outras chamadas para o Rio de Janeiro, Mato Grosso, Goiás, Rondônia, Maranhão, entre outros. Também houve chamadas para a Penitenciária Barreto Campelo. O valor da conta foi de R$ 3.297.

A explicação de Vera e de seu filho não convenceu ninguém. Ela disse que a linha foi oferecida por “Cristiano”, que conheceu numa das visitas a Marcílio.

“Quando ele instalou a linha, Marcílio e Carlinhos falavam com os parentes, mas não sei do que tratavam, só passava as ligações”, justificou-se. As ligações eram passadas através de conferência, um serviço oferecido pela empresa telefônica. Vera também explicou que o telefone era usado por qualquer pessoa que pedia.

DEPOIMENTOS – Os outros depoentes foram os caminhoneiros Paulo Muniz e Jair Gonzaga, o advogado Cristóvão Tadeu Cavalcanti, José Suetônio do Nascimento, o prestamista Erivaldo dos Santos e o comerciante Torquato Tenório Ramos. Todos suspeitos de envolvimento com roubo e interceptação de cargas. Dentre esses, o que provocou mais espanto aos deputados foi Cristóvão, que alegou “não ser advogado de ladrão de galinha, mas sim dos 50 maiores bandidos do Estado”. Para o relator da CPI, deputado Fernando Lupa (PSDB), nesse momento, o depoente assumiu que seus clientes eram bandidos.

Foi também durante o depoimento de Cristóvão que os ânimos ficaram alterados.

De um lado, Lupa pedia para que o depoente só respondesse quando fosse perguntado. Do outro, o acusado era sagaz com as respostas e, por fim, o advogado Herodoto Pinheiro reclamou do tratamento dado a seu cliente, que, segundo ele, estava sendo considerado acusado, quando era apenas uma testemunha. Cristóvão é acusado de receber e vender produtos roubados como forma de pagamento.

Suetônio, Torquato e Erivaldo ficaram frente a frente, numa acareação para confirmar, ou não, as informações dadas individualmente.