AL quer punir responsáveis da “Tragédia da Hemodiálise” O sentimento de indignação e a sensação de impotência imperaram durante a Audiência Pública realizada ontem, em Caruaru, a pedido do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Romário Dias (PFL), para discutir a sentença proferida pelo juiz Sérgio Paulo que inocentou os acusados da “Tragédia da Hemodiálise”. Durante mais de duas horas deputados, vereadores, representantes do Ministério Público, parentes das vítimas, advogados e o promotor Zadir Barbosa, que deu entrada numa apelação contra a sentença, questionaram a decisão do juiz e apresentaram laudos que subsidiam o posicionamento contrário de todos eles. Apesar de ter sido convidado a participar da audiência, o juiz Sérgio Paulo não compareceu.
O promotor da Comarca de Caruaru, Zadir Barbosa, fez um discurso forte.
Acompanhando o caso há seis anos o promotor detalhou, passo a passo, a tragédia ocorrida naquele município. Barbosa apontou, uma a uma, as possíveis contradições e equívocos na sentença de Sérgio Paulo. Um dos pontos mais gritantes, segundo o promotor, é quando o autor da sentença diz que não dispunha de provas suficientes para condenar os acusados. Ele disse ainda que, ao contrário do que alegou o juiz, não era a primeira vez que o caso era registrado na medicina. “Ocorreram casos iguais em Mogi da Cruzes e em Portugal. O problema é que ainda é grande o número de médicos que não lê, não estuda o que surge de novo na medicina e só se interessa em sugar o dinheiro dos pacientes assinando laudos sem explicar a causa mortis”, desabafou.
Depois de explicar cada um dos pontos controversos da decisão, Zadir Barbosa disse que “esta é uma sentença de conflito”. “Eu tenho a impressão de que o juiz Sérgio Paulo teve que sofrer muito para encontrar elementos para absolver os acusados, porque com toda a documentação que ele tinha nas mãos não era precisa se esforçar muito para condená-los, mas sim para absolvê-los”, concluiu o promotor.
O presidente da Associação dos Pacientes Renais Crônicos de Pernambuco (Asparpe), Carlos Queiroga, questionou o fato do Cremepe também ter inocentado todos os médicos envolvidos no caso, apesar dos donos do IDR terem contratado um encanador e um eletricista para cuidar da qualidade da água que era utilizada no tratamento, e solicitou aos deputados que convidem o presidente do órgão para explicar a decisão. Queiroga disse ainda que está envergonhado com o Poder Judiciário pernambucano. “Depois de seis anos é esse o desfecho que nos apresentam? Espero que o Poder Legislativo tenha força para chamar à responsabilidade o Poder Judiciário”, disse.
Os deputados João Braga (PV), Garibaldi Gurgel (PMDB), Roberto Liberato (PFL) e José Queiroz (PDT) se comprometerem a continuar discutindo o assunto na Casa, a fim de evitar que ele seja esquecido. “O cidadão pernambucano deseja um desfecho claro para este caso. Vamos nos manter vigilantes e lutar para que esta tragédia não fique na impunidade e novos casos como esse não voltem a acontecer”, disse Braga.
Ausência No início da audiência, o deputado João Braga (PV) leu, na íntegra, uma carta enviada pelo advogado dos acusados, Gilberto Marques de Melo Lima, na qual tenta justificar sua ausência na reunião. Entre os vários motivos alegados pelo não comparecimento, o advogado citou o fato de ser este um ano eleitoral e do contraditório, ou seja, sua defesa, só ter sido respeitada em Juízo e no Cremepe.
O advogado aproveitou a oportunidade para levantar dúvidas quanto ao encaminhamento do processo. “A escolha dos médicos como alvo principal talvez tenha sido uma estratégia e não um equívoco. O intuito seria esconder a possibilidade concreta de 400 mil pessoas terem sido contaminadas pela ingestão oral da microsystina constante da água de Tabocas”, afirmou.
A “Tragédia da Hemodiálise” aconteceu em fevereiro de 1996, quando os pacientes do Instituto de Doenças Renais de Caruaru (IDR) foram contaminados pela toxina microscystina LR, surgidas com a morte das microalgas encontradas na água dos caminhões-pipa que abasteciam a clínica. Setenta e três pessoas morreram e mais de 80 ficaram com seqüelas graves.
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