Série “Lugar de Mulher”: mulheres conquistam espaço em profissões consideradas tipicamente masculinas

Em 31/03/2017
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Acordar cedo, pegar condução, vestir uniforme, bota, capacete, e passar o dia trabalhando no canteiro de obras. As atividades vão desde os serviços de alvenaria, como preparar massa de cimento, assentar lajotas e carregar entulho, até o acabamento. Quem pensa que se trata da rotina de um homem está muito enganado. Esse é o trabalho de Viviane Pereira da Silva, que atua como servente de pedreiro há cinco anos no Recife. Ela conta que se encantou pela área desde pequena, quando ajudou o pai a construir a própria casa num terreno que ele havia comprado. Quando Viviane cresceu e se casou, seguiu fazendo pequenas reformas e reparos na casa onde vive com a família. Até que surgiu a oportunidade de fazer um curso de formação na área. O marido, que já trabalhava na construção civil, apoiou, e pagou pelas aulas. Mas, quando ela recebeu a proposta de trabalhar fora de casa, o tempo fechou. “Quando ele soube que eu ia trabalhar, aliás, já estava trabalhando na construção civil, passou uma semana sem falar comigo. Aí eu falei para ele: ‘Só não me peça para escolher entre você e trabalho. Aí pronto, depois disso ele se acostumou, até a data de hoje.”

Além de enfrentar o preconceito dentro de casa, Viviane também passou por dificuldades com alguns colegas de trabalho. “Tinha uns que criticavam, falavam: ‘Oxe, lugar de mulher é em casa! Essas mulheres vieram para fazer nada, só para atrapalhar.’ Aí quando ele viu que a gente mostrou mesmo serviço, pronto. Num instante foram pegando amizade.”  

As estatísticas explicam, em parte, o porquê de tanto estranhamento. De acordo com dados de 2015 do Ministério do Trabalho, apenas 9% das pessoas que atuam na construção civil em Pernambuco são mulheres. Assim como outros setores, como transportes, informática, engenharia, a profissão de Viviane está entre aquelas que ainda são majoritariamente exercidas por homens.

De acordo com a procuradora do Ministério Público do Trabalho em Pernambuco, Melícia Carvalho, o preconceito contra mulheres nesses ofícios tem raízes culturais e familiares. “Talvez venha até mesmo da educação, da universidade, em que elas não são estimuladas a escolher carreiras de exatas, matemática, física, engenharia. E isso repercute logicamente no mercado de trabalho. Então, passa por uma questão cultural.”

A história da taxista Luciene Oliveira não é muito diferente. Ela exerce a profissão há cinco anos, quando precisou assumir o posto do pai, que teve que se afastar do volante temporariamente por motivos de saúde. Para ela, o preconceito de passageiros com motoristas mulheres tem diminuído, embora ainda persista no trânsito. “Mas eu não ligo muito para o que eles falam não, sabe. Eu só não baixo a bola. Do tipo: ‘Vai pra casa, vai cuidar da casa, lavar um prato, porque é melhor do que estar na rua’. Aí eu revido. Eu não levo desaforo para casa, não.”

Luciene acredita que, ao contrário do que se prega, as mulheres são mais cuidadosas na direção, além de mais atenciosas com os passageiros. Isso acaba atraindo uma parcela grande de clientes, tanto de homens, quanto mulheres. Para ela, o público masculino se sente mais confortável para conversar com a motorista, e as mulheres, mais seguras.

No Recife, uma comunidade feminina nas redes sociais reúne troca de informações sobre serviços prestados somente por mulheres. Luciene afirma que recebe muitas chamadas de gente que pegou o contato dela nesses grupos.

O professor de sociologia da UFPE e coordenador do Observatório do Mercado de Trabalho em Pernambuco, Sidartha Soria, acredita que essa união das mulheres é fundamental para abrir caminhos para a igualdade no ambiente coorporativo. “Não nos esqueçamos que ainda o machismo prevalece em certos setores, tradicionalmente naqueles que se considera que ‘aquilo é coisa de homem’. As mulheres organizadas politicamente ainda devem trilhar um caminho de luta no sentido de ampliar a participação também nesses lugares onde são minoritárias.”

A procuradora Melícia Carvalho também ressalta que nenhum critério discriminatório, como idade ou sexo, pode ser usado na seleção ou exercício de uma profissão.