No mundo dos negócios, falar em empreendedorismo é rotina. Quem faz parte do time de uma empresa de sucesso tem na ponta da língua as qualidades de um bom empreendedor. A coordenadora da ONG Endeavor, Júlia Dias, lista as características. “Otimismo, autoconfiança, coragem para aceitar risco, desejo de protagonismo e resiliência. E, no fim do dia, esses aspectos podem estar presentes em diversas situações, não só quando a gente está à frente do nosso negócio, mas como funcionário também.” Mas vamos deixar de lado o campo empresarial.
Alto José do Pinho, bairro da Zona Norte do Recife. Área de morro, habitada por famílias de baixa renda, que convivem com tráfico de drogas, assassinatos e violência doméstica. Na comunidade, um combate pacífico é travado em defesa de crianças e adolescentes ameaçados pelo crime, por meio da contação de histórias. O casal de administradores, Ana Carla Albuquerque e Marcopolo Marinho, trouxe para o bairro o projeto Empreendeler. Eles demonstram que empreendedorismo não é só abrir negócios, mas mudar atitudes e comportamentos. A ONG não é a única que utiliza a leitura como instrumento de transformação social. Mas ela traz um método diferente: a escolha criteriosa do conteúdo apresentado às crianças. A fábula “Os Três Porquinhos”, por exemplo, é recontada como lição sobre ter responsabilidade quanto aos próprios atos, como explica Ana Carla Albuquerque. “Aquele porquinho que seguiu os conselhos da mãe, que estudou, que trabalhou, que se esforçou, nenhum lobo veio derrubar. E um exemplo que a gente traz também na questão do lobo é que a própria criança e o próprio jovem, ele é lobo da vida dele se ele não construir algo sólido.”
Na leitura promovida semanalmente no Centro Social Dom João Costa, no Alto José do Pinho, dezessete crianças entre sete e dez anos entram na biblioteca ansiosas para começar a atividade. Nesse dia, é a vez de a criançada contar histórias. Abraão Vítor, de dez anos, é o primeiro a se apresentar. Os contos de terror são os favoritos dele. No centro ele se sente querido e mais seguro. “Não tem muita violência, assim, não tem muito desrespeito ao próximo, não tem essas coisas, tipo, vou matar ele e ele vai ganhar, e agora eu vou perder pra ele. Eu sempre perco. Não tem isso de uma pessoa única não”.
Após quase um ano de implantação do projeto, crianças que antes tinham comportamento agressivo, apresentam avanço intelectual e interagem bem socialmente. A coordenadora do Empreendeler, Danielle Bezerra, reforça que os voluntários também experimentam crescimento pessoal. “Quando a gente tá fora de uma comunidade, a gente imagina a realidade deles, mas quando a gente tá aqui dentro é que a gente realmente entende, a gente vê, a gente enxerga, a gente se coloca na realidade deles, nas dores que eles estão sentindo. E aí a gente começa a ser muito mais humano, a gente consegue ser muito mais empático”.
Segundo a ONG Endeavor, o empreendedorismo pode e deve ser ensinado. O conceito está incluído nas estratégias do Plano Estadual de Educação aprovado pela Assembleia Legislativa em 2015. No texto da lei, é recomendada a ênfase do conteúdo no currículo do ensino médio. O projeto Empreendeler investe na mudança de valores e atitudes desde o ensino fundamental. E a experiência do Alto José do Pinho demonstra que a ficção pode fazer muito bem à realidade das crianças da comunidade.
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