Resistir para conquistar: chances de emprego são quase nulas para transexuais, mas a luta por melhores oportunidades tem ajudado a mudar esse contexto

Em 26/08/2016
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Fabianna, Maria Clara e Heymilly. Mulheres que assim como tantas outras, sentem na pele as dificuldades de se firmar no mercado de trabalho. Para essas três, os obstáculos até a tão sonhada vaga de emprego são ainda maiores. Por quê? Pelo fato de serem transexuais. 

Fabianna Mello é a primeira transexual contratada para trabalhar na Alepe Foto: Giovanni Costa/Alepe

Fabianna Mello é a primeira transexual contratada para trabalhar na Alepe
Foto: Giovanni Costa/Alepe

Fabianna Mello, por exemplo, é a primeira transexual a trabalhar na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Desde junho, a estudante de Psicologia de 37 anos atua na Comissão de Cidadania. O trabalho ela conhece bem: o combate à negação de direitos. Dona de uma história de vida difícil, ela sofreu com o preconceito dentro da própria casa, precisou abandonar a faculdade e perdeu empregos por causa das mudanças no corpo. Em São Paulo, longe da família, o sustento veio pela prostituição. “E eu sempre achava que a culpa toda era minha. Sempre me culpabilizava por tudo isso. E a partir do momento que você vê que isso não tem nada a ver com você e sim com o sistema – que dita regras, padrões de sexualidade, comportamento, de vestimentas, de tudo -, percebi que não, o meu problema não é  meu. É da sociedade que não quer enxergar que existem pessoas que são diferentes.”

Expulsa de casa aos 19 anos, Maria Clara precisou se prostituir para se sustentar Foto: Giovanni Costa/Alepe

Maria Clara: “eu sabia o que eram diritos humanos, mas do lado avesso”
Foto: Giovanni Costa/Alepe

A trajetória de Maria Clara de Sena, de 37 anos, não foi muito diferente. Ela foi expulsa de casa aos 19 anos. Em 2009, Maria Clara conheceu o Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo, conhecido como GTP+, organização que acolhe pessoas com HIV e profissionais do sexo. “Eu comecei a ver que eu sabia o que eram direitos humanos, mas do lado avesso. E comecei a ver, nesse local, que não só eu sofria com isso, mas todas as minhas amigas.” Hoje, Maria Clara é idealizadora de um projeto que tem foco na proteção a transexuais no sistema prisional. Ela também é a primeira travesti, como se define, a ocupar o cargo de perita do Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, vinculado à Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos. A iniciativa obedece a protocolo da Organização das Nações Unidas.

Heymilly Mainard reforça que o preconceito no mercado de trabalho dificulta a empregabilidade das transexuais Foto: Giovanni Costa/Alepe

Heymilly Mainard reforça que o preconceito no mercado de trabalho dificulta a empregabilidade das transexuais
Foto: Giovanni Costa/Alepe

Heymilly Maynard, de 22 anos, é vice-presidente da Nova Associação de Travestis e Transexuais de Pernambuco. Ela reforça o discurso de preconceito no mercado de trabalho e defende a necessidade de o Poder Público atuar na questão. “Até chega a acontecer a empregabilidade, mas vou deixar bem claro de que forma acontece: o gay é empregado. A lésbica, o bissexual. Mas o ‘T’ [transexual], ele é esquecido.” Assim como a maioria, Heymilly também foi oprimida pela família. Ela chegou a se formar em Turismo, mas, desempregada desde outubro do ano passado, também se prostituiu. “Eu já me reconheci como menina aos quatro anos de idade. Foi um sofrimento muito grande ouvir minha mãe me falar que preferia ter um filho marginal, mas não queria ter um filho que se veste de mulher ou que quer ser mulher. Pra mim aquilo foi chocante.”

Entidades do movimento LGBT calculam que, no Brasil, cerca de 90% das travestis e transexuais são levadas à prostituição. Não existem números oficiais. O Dieese, Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, realiza mensalmente a Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana do Recife, mas a metodologia não faz recorte que alcance esse segmento. 

Longe das estatísticas e diante de todas as dificuldades relatadas, a realidade das transexuais é cruel, como constata a perita Maria Clara. “Pernambuco está nas estatísticas como onde mais se mata pessoas trans. Recife é a capital. Se isso está acontecendo no nosso país e o Estado não toma providências, é porque não funciona. E se o Estado não funciona, a nossa família também não vai funcionar. Ela se torna violadora.”

A presidente da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco, Chopelly Santos, afirma que sem uma política pública de continuidade, os obstáculos permanecerão. Ela lembra que, até pouco tempo, o Centro Estadual de Combate à Homofobia, da Secretaria Executiva de Direitos Humanos, prestava importante serviço à comunidade, mas as atividades foram suspensas em maio. “A Secretaria Executiva de Direitos Humanos abriu um edital, mas precisava pagar uma taxa de R$ 40 para análise curricular. Mas quando fomos criar os Centros de Referência, um dos nossos objetivos era que pessoas trans trabalhassem neles. E como é que uma pessoa trans vai desembolsar R$ 40 para pagar uma seleção simplificada se a maioria delas está desempregada?”

Em nota, a Secretaria informou que a paralisação das atividades se deve a uma mudança no regime das contratações, que passam a ser vinculadas diretamente ao Estado, o que garante a continuidade do serviço. Além disso, afirmou que o valor da inscrição viabiliza o processo seletivo, dando prioridade a profissionais com experiência comprovada em direitos humanos.