Reportagem da Semana: Bonecos Gigantes

Em 01/03/2019
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Eles são coloridos, pesam mais de 13 quilos e medem quase três metros e meio de altura. Com semblante alegre e frevo no pé, são um marco da folia pernambucana. E, em 2019, estão completando 100 anos. Os bonecos gigantes do Carnaval nasceram em Belém do São Francisco, no Sertão de Itaparica, em fevereiro de 1919, quando surgiu o personagem Zé Pereira.

De lá pra cá, a família só fez crescer. Tudo começou a partir das histórias contadas na cidade pelo padre belga Norberto Phallapin, no início do século 20. Ele relatava o uso de bonecos gigantes, na Idade Média, na Bélgica, atraindo as pessoas para as procissões religiosas. Foi aí que o folião Gumercindo de Carvalho teve uma ideia: criar um gigantesco boneco para animar os dias de folia no município. E deu o nome de Zé Pereira para homenagear uma outra lenda do Carnaval, como explica a antropóloga e professora da Universidade de Pernambuco, Tercina Lustosa: “Aqui, em Recife, já existia uma figura de Zé Pereira, só que não era gigante, era um homem que saía com um bombo, percutindo, batendo um bombo, chamando as pessoas para o Carnaval. Esse Zé Pereira do Recife já foi uma cópia de um Zé Pereira do Rio de Janeiro. E o Zé Pereira do Rio de Janeiro foi uma cópia de Lisboa. Aí, quando Gumercindo criou o boneco dele, deu o nome de Zé Pereira. A gente chama isso, em antropologia, de fluxo cultural, que é uma teoria de Franz Boas.”

Autora do livro “Berço Brasileiro dos Bonecos Gigantes: Belém do São Francisco”, Tercina observa que, no imaginário popular, o personagem chegou à cidade num barco pelo Rio São Francisco, vindo da Europa. Dez anos depois, foi criada a boneca Vitalina para ser a sua companheira. E, em 1932, surgia, em Olinda, o tradicional Homem da Meia Noite, que está completando 87 anos.  

Ele é um ícone da  folia pernambucana. Desfila, exatamente à meia noite, no sábado de Carnaval, saindo da Rua do Amparo e arrastando uma multidão pelo Sítio Histórico.  Há duas versões para o surgimento do personagem. Uma delas diz que um dos fundadores do clube, Luciano de Queiroz, teria se inspirado no filme “Ladrão da Meia Noite”. Outra afirma que o compositor Benedito Bernardino da Silva flagrou um homem forte, elegante, com dente de ouro e  chapéu preto, pulando as janelas das casas das moças para namorá-las.

Lendas à parte, o Homem da Meia Noite se consolidou como muito mais que um boneco gigante: é considerado uma entidade espiritual, o chamado Calunga. Presidente do clube há 17 anos, Luiz Adolfo observa: Tem uma relação mística, profunda, por ter nascido no dia de Iemanjá e à meia noite, que é o horário mais místico do povo brasileiro. Ele é considerado o calunga do Carnaval, e não um boneco. O desfile do Homem da Meia Noite é quase uma romaria religiosa. Tem pessoas que hoje entram na nossa sede e ficam na frente rezando, como que pedindo proteção”.

Há 45 anos, o artista plástico Sílvio Botelho se dedica a fazer bonecos gigantes. Ele já fez mais de 1.340 exemplares, sempre valorizando a cultura pernambucana. E dá aulas-espetáculos ensinando o ofício na Casa dos Bonecos Gigantes de Olinda, no Amparo, na Sé e nos Quatro Cantos, onde as peças também estão expostas. “É uma leva de pessoas fazendo bonecos em suas casas, querendo ser bonecos, e agora as crianças de 5,6 anos, de 8 anos, tudo tem boneco brincando  nas ruas. É uma beleza! É lindo! Incorporaram essa manifestação”.

Na “pátria dos bonecos gigantes”, como é chamada Olinda, um exemplar de Sílvio Botelho pode custar a partir de três mil reais. A oficina fica na Rua do Amparo, número 45. Já no Bairro do Recife, a Embaixada de Pernambuco dos Bonecos Gigantes de Olinda também expõe e confecciona uma nova geração de peças.

Desde 2009, foram feitas quase 500, sendo que 65 estão expostas no museu. O produtor cultural Leandro Castro destaca o espaço como atrativo turístico. Propiciando, principalmente para o turista, a possibilidade de conhecer a origem dessa tradição e ter contato com esses bonecos que eles costumam ver na televisão no Carnaval. São bonecos mais globalizados. Tamos fazendo todo mundo cair no frevo. É Michael Jackson no frevo, é o Messi, é Mandela, e sempre valorizando ícones pernambucanos. Temos Mestre Vitalino, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Ariano, Alceu, Chico Science”.

No local, que fica na Rua do Bom Jesus, 183, pode-se encomendar boneco gigante, a partir de cinco mil reais, e miniatura personalizada, a partir de mil reais.