Reféns do trânsito: Taxistas têm qualidade de vida comprometida pelo estresse diário das ruas

Em 27/04/2018
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Imagine dirigir em média 14 horas por dia, tendo como ambiente de trabalho as ruas da cidade com o trânsito mais lento do país…Essa é a rotina do recifense Cássio Reis, 29 anos de praça. Esgotado e sentindo dores pelo corpo, ele afirma que taxista só vai ao médico quando está “nas últimas”

“Eu mesmo tenho até medo de ir pro médico. Porque eu sei que se hoje pedir para fazer exame de sangue, urina, essas coisas… ele vai dizer tantas coisas que o único medo que o taxista tem hoje é de adoecer e pensar em como é que vai sustentar a família. Então eu vou levando a minha vida, como Deus quer, mas vamos ver até quando eu vou aguentar.”

Cássio aponta que a chegada dos aplicativos de carona remunerada mudou para pior a rotina já exaustiva. Ele chora ao falar que não consegue mais dormir direito, conviver com os filhos, passear… todo o tempo é dedicado a tentar vencer a disputa pelos passageiros. O medo de ter a principal fonte de renda encolhida em razão do aumento da concorrência com os carros de aplicativos circula pelas praças de táxi mundo afora.

O desgaste emocional intenso chega a levar alguns ao suicídio, como o motorista americano Douglas Schifter, que se matou em frente à Prefeitura de Nova Iorque em fevereiro deste ano. Ele vinha denunciando o que considerava o declínio da indústria do táxi, diante do descontrole na emissão de licenças para veículos de carona remunerada. A taxista recifense Carla Coutinho, 14 anos de praça, lamenta que a crise da profissão não seja levada ao conhecimento do público.

“Existem vários casos aqui em Recife, que infelizmente não é publicado na mídia, (…) de suicídio. Pais de família que não suportaram a pressão, o desgaste emocional de uma profissão que é legalizada e existe há mais de cinquenta anos. Nós temos cerca de um milhão de taxistas em todo o Brasil que estão sofrendo, não só aqui no Recife, mas em todo o Brasil, tem vários casos em vários estados.”

No Brasil, os taxistas continuam resistindo às mudanças no mercado de transporte individual. E essa mobilização já surtiu efeito legislativo. Este mês, a Prefeitura do Rio de Janeiro foi mais uma gestão municipal a emitir decreto taxando as empresas que operam o serviço de carona remunerada. Já está sendo elaborada resolução semelhante para a Capital pernambucana, como informa o secretário de Mobilidade e Controle Urbano do Recife, João Braga. Segundo ele, a prefeitura tem buscado racionalizar o uso da malha viária, permitindo, por exemplo, que táxis usem a faixa azul, mesmo sem passageiros.

Se por um lado esse profissional depende de intervenções do poder público, existem atitudes simples que o motorista pode adotar por conta própria e, com isso, preservar a saúde. A fisioterapeuta Mariana Dornelas sugere que, mesmo sob pressão para faturar mais corridas, os taxistas façam pequenas pausas.

“ A sugestão seria a cada viagem, ou a cada hora, se alongar, descer um pouco do carro, esticar as pernas, bombear aqueles bombeamentos de panturrilha, alongar, colocando as mãos pro alto.”

Mariana lembra que trabalhar sentado por muitas horas pode causar problemas de saúde como dor nas costas. E ainda existe um hábito que pode agravar esse quadro.

“É comum que o taxista (…) carregue às vezes a carteira no bolso, então essa carteira (…) pode comprimir o nervo ciático, piorando, intensificando a dor”.