Presença feminina nos espaços de poder ainda enfrenta muitos desafios

Em 17/03/2017
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O discurso costuma ser o mesmo: homens têm mais disponibilidade para trabalhar por longos períodos e fazer viagens de negócios; mulheres precisam se dividir entre o lar, a maternidade e o trabalho. Homens são mais firmes, mulheres são frágeis.  Esses estereótipos são usados, ainda hoje, para justificar a predominância masculina nos espaços de poder, segundo a procuradora do Ministério Público do Trabalho em Pernambuco, Melícia Carvalho. “Isso é uma das questões que envolvem o sexismo, a cultura arraigada, o machismo, às vezes até uma visão misógina. Ela tenta desmerecer e diminuir a mulher, sabotar a auto-estima dela, de forma que algumas até se questionam se são mesmo capazes. Elas se acham no dever de trabalhar duas vezes mais, de estar qualificada duas vezes mais para concorrer à mesma vaga que o homem.”

Daniela Petribú é diretora-presidente de uma das maiores refinarias de açúcar em Pernambuco. Ela relata que enfrentou dificuldades quando assumiu o posto, há dois anos, em um ambiente tipicamente masculino. “Eu, às vezes, senti uma certa desconfiança no olhar das pessoas, principalmente dos mais velhos. E aí eu imaginava que estavam pensando: ‘O que essa menina está fazendo aqui?’”


No Brasil, 35% das vagas em cargos de direção nas organizações privadas são ocupadas por mulheres, segundo o levantamento feito pelo Observatório do Mercado de Trabalho de Pernambuco, da UFPE, para a Rádio Alepe. Os dados são de 2015. O coordenador da instituição, professor de sociologia Sidharta Soria, explica que, apesar da paridade ainda estar distante, existe uma tendência de elevação no número de mulheres em funções de chefia. E, para ele, o movimento feminista tem papel fundamental nessa ascensão. “Como um efeito dessa movimentação das mulheres, nós temos uma mudança no perfil cultural das empresas, no sentido de se tornarem mais plurais, de abrirem não só para mulheres, mas também para representantes de outras minorias políticas, essa questão da inclusão.”

O sociólogo também destaca que, no setor público, onde a seleção é feita em condições de igualdade, por meio de concursos, a presença feminina nos cargos de gestão chega a 47% no Brasil, e 60% em Pernambuco. Para ele, o dado atesta a competência das mulheres. Por outro lado, setores como a política ainda são bastante resistentes. Nas últimas eleições, somente 14% dos municípios pernambucanos elegeram mulheres para o comando das prefeituras. A ex-deputada estadual Raquel Lyra, do PSDB, foi uma delas. Atual gestora do município de Caruaru, no Agreste Central, ela aponta que faltam políticas públicas para garantir maior participação feminina no setor. Mas, exatamente pelo fato das decisões serem tomadas por homens, essas políticas acabam não acontecendo. “Eu tenho uma emenda constitucional lá na Assembleia Legislativa para que fosse obrigatório uma mulher na Mesa Diretora da Casa. E eu sei que eles aprovaram só em deferência a minha pessoa, porque não concordavam com o conceito, porque as mulheres deveriam ocupar somente por conta do seu conteúdo. Mas isso é mais do que conteúdo, isso é necessidade de ocupação de espaço político de quem representa mais de 50% da população.”

A opinião é compartilhada pela presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Alepe, deputada Simone Santana, do PSB. “Existe a cota de 30% dos candidatos serem do sexo feminino em todas as eleições. Mas a gente sabe que essa cota, muitas vezes, é só cumprida formalmente. Não é dada a condição para essas mulheres efetivamente serem competitivas e de chegarem ao êxito num pleito eleitoral.”

A parlamentar defende a existência de cotas para mulheres na política, que poderiam ser gradualmente relaxadas à medida que a sociedade absorva a importância dessa representação. Para a procuradora Melícia Carvalho, essa consciência só vai ser adquirida por uma mudança de paradigmas. “De uma mudança que comece na própria casa, na própria família. A eliminação do preconceito no ambiente do trabalho, o fomento da discussão pelos setores públicos e privados. É uma mudança que também passa pela necessidade de consciência feminina do poder dela, da capacidade dela para que a gente também mude esse quadro.”