O número de pessoas que se suicidam a cada ano é maior do que as que morrem em todos os conflitos do planeta somados, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Na faixa etária entre 15 e 29 anos, o suicídio é a segunda maior causa de mortes no mundo. Dados do Ministério da Saúde indicam que, no Brasil, as lesões autoprovocadas intencionalmente levaram à morte quase onze mil pessoas em 2013. A OMS considera esse um problema de saúde pública global. Durante mais de vinte anos, a psicóloga Josélia Quintas trabalhou na enfermaria de queimados, do Hospital da Restauração, no Recife. Só naquele setor, quase um terço dos pacientes eram internados após tentar se matar. A psicóloga afirma que os números oficiais não retratam a realidade. “O queimado, por exemplo. Ele estava ali por queimadura por autoagressão, mas, no atestado de óbito, a informação é que morreu por queimadura, não diz que essa queimadura foi decorrente de uma tentativa de suicídio. Então esse daí já não contou na estatística. E eram muitos.”
Josélia trabalhava com pessoas que já tinham tentado se matar, mas o cuidado com o paciente pode começar bem antes. Maria Paula, diagnosticada com transtorno depressivo, questiona a falta de integração do sistema de saúde desde o início do tratamento. Ela tentou se matar em 2009. O nome foi trocado, e a voz, distorcida, para preservar a identidade da entrevistada. “Um primeiro sintoma físico que eu tive foi líquen, umas feridinhas que começaram no meu dedo e se espalharam pelo corpo. Eu fui pro dermatologista, ele olhou, examinou e viu: ‘é, isso é líquen’. Passou um hidratante, um remédio para aliviar a coceira e não falou nada da causa daquilo. E é uma doença psicossomática e que estava muito relacionada já com ansiedade, com depressão, com estresse. Então um profissional de saúde, um médico, poderia dizer ‘ó, procure um psiquiatra, procure um psicólogo’.”
A falta de informações sobre transtornos mentais foi apontada como problema pela psicóloga Suzana Schettini, em uma audiência pública na Alepe. “As pessoas têm preconceito, não entendem depressão, acham que é frescura, que é bobagem, que é preguiça.” Maria Paula confirma. “Não tem prevenção a diabetes, a obesidade? Por que não também ter uma campanha em relação à saúde mental? Desmistificar essa coisa do rótulo do louco ou da frescura, que é uma coisa que você escuta muito, que depressão é frescura. Não, é uma doença. Tem tratamento.”
O cuidado com a saúde mental começa na infância e no convívio familiar, na visão da psicóloga Ana Andrade Lima. “Essa prevenção começa desde que a criança nasce. É muito importante o tempo com a família, o vínculo, a conversa, proporcionar vivências importantes na vida como um todo.”
Coordenadora do Centro de Valorização da Vida, o CVV, no Recife, Eliene Soares aponta que muitas vezes o suicídio não representa a vontade de morrer, mas de acabar com o sofrimento. “A pessoa que está com pensamento suicida, na realidade, ela está querendo se livrar de uma grande dor, de um grande sofrimento. E o que ela mais quer é ter apoio, ser ouvida, de forma amorosa. Porque o que acontece muito, na sociedade, quando a gente vai falar sobre nossos sentimentos, é o medo de ser julgado.”
A psicóloga Josélia Quintas explica como é possível prevenir o suicídio, com o trabalho da psicoterapia. “A grande questão é como eu suporto o sofrimento da vida. A gente faz prevenção para que essas pessoas sejam mais fortalecidas na sua dinâmica de vida e possam enfrentar as dificuldades. Força nós temos, todos nós temos uma força. A gente desconhece a nossa força.”
Recuperada, hoje Maria Paula fala com serenidade sobre o passado e aponta um caminho para quem precisa de apoio. “Procura ajuda que sim, tem como você melhorar, tem como você viver bem. Um bom profissional vai saber te orientar pra você resolver essas questões psicológicas. E, se for necessário medicação, um profissional, médico, psiquiatra, vai saber administrar isso de forma responsável. Não é porque você vem pensando nisso há um certo tempo que isso vai ser assim pra sempre. Tem jeito, tem vida, vida saudável, possível.”
Se você precisa de ajuda, procure um psicólogo, psiquiatra ou entre em contato com o Centro de Valorização da Vida: ligue 141 ou acesse o site cvv.org.br.
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