O dia na Casa do Hemofílico começa cedo. Situada no número 356 da rua Augusto Rodrigues, bairro do Torreão, Zona Norte do Recife, a instituição recebe cerca de quarenta pacientes por mês. A entidade presta apoio a pessoas que moram fora da capital pernambucana e precisam fazer tratamento na Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco, Hemope. Gente como Juarez Andrade, de 34 anos, que vem de Feira Nova, no Agreste Setentrional. Hemofílico, ele precisa receber um derivado do sangue chamado Fator 8, que tem características coagulantes. O tratamento de Juarez é diretamente ligado à doação de sangue. “Eles falam que o estoque tá pouco, e a gente tem que aceitar, aí tá pegando só por semana. A gente depende da doação do sangue. Sem o sangue, eles não podem fabricar nosso medicamento.” Em outro bairro da Zona Norte, Parnamirim, mora o advogado Victor Senna, de 30 anos. Ele não sabe, mas já pode ter sido essencial ao tratamento de Juarez. É que pelo menos duas vezes por ano, Victor vai ao Hemope para doar sangue. Com tipo O negativo, considerado doador universal, ele afirma sentir uma obrigação moral correndo pelas veias. “Eu vejo importância no ato de doar porque a gente sempre vê notícias de que os bancos de sangue estão sempre vazios. As pessoas têm que se conscientizar que não devem doar sangue só quando recebem um chamado de algum amigo, de algum parente que está precisando, ou em campanha do Facebook ou outra rede social. Eu acho que doação de sangue tem que ser feita voluntariamente e sempre.”
Além da doação de sangue, outras formas de voluntariado contribuem para mudar a vida de quem precisa. Foi por meio de um trabalho da faculdade que o universitário Eurico Medeiros, de 21 anos, conheceu uma creche comunitária em Olinda, na Região Metropolitana do Recife. A entidade perdeu alimentos e móveis depois de uma enchente. Junto com os amigos, Eurico organizou uma corrente do bem. “Quando a gente chegou lá, conheceu as crianças, conheceu a carência da instituição, nos tocou, e nos empenhamos bem mais. A gente fez arrecadação de alimentos, de roupa, de brinquedo, levou pra lá e fez tipo uma gincana com eles. Foi uma coisa que a gente não esperava não, eu mesmo não esperava o que aconteceu lá.” Ações como as de Victor e Eurico cumprem um papel importante na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Como uma engrenagem para a cidadania, o voluntariado contribui para suprir deficiências em áreas como educação, saúde e lazer. Os cidadãos engajados nessas atividades afirmam que não exercitam apenas a caridade, mas a defesa dos direitos da população.
E se antes o voluntário era tido como alguém que presta um favor, hoje ele precisa atender a um conjunto de deveres e responsabilidades para atuar no setor. Um exemplo é o trabalho social realizado no Movimento Pró-Criança, no Recife. A instituição oferece cursos de música, dança, informática e apoio pedagógico a crianças e adolescentes de bairros carentes, e conta com a ajuda de voluntários para desempenhar as tarefas. A coordenadora do voluntariado da entidade, Júlia Menezes, ressalta o papel-chave do participante que se compromete com a instituição. “É muito importante aquele voluntário engajado. Porque, além de ele ser uma voz para outras pessoas, ele também vai cumprir um papel não só com a instituição mas com as outras pessoas que são beneficiárias. Quando o voluntário começa a se enxergar como parte da instituição – porque as crianças têm uma receptividade muito grande, elas são muito carinhosas -, o voluntário também se emociona com isso. Ele também se envolve, ele também conversa, é uma outra pessoa para também ser um exemplo para as crianças e adolescentes que estão ali.”
Pesquisa realizada em 2014 pelo Instituto DataFolha aponta que 58% da população afirma estar disposta a exercer atividades voluntárias, e mais de 60% concorda que ajudar a quem precisa não é papel apenas do Poder Público. De acordo com o sociólogo Paulo Henrique Martins, da Universidade Federal de Pernambuco, essa mudança na percepção do trabalho gratuito e solidário se deve a uma alteração no modelo de sociedade. “Eu diria que estamos passando de um paradigma de modernidade muito baseado na questão do interesse material, egoísta, para um paradigma em que só se resolve a questão do sofrimento humano na medida em que nós tivermos mais pessoas com essa capacidade de exercer o voluntariado e entrega ao próximo para acolhê-lo e liberá-lo à cidadania.” O dicionário define o voluntariado como o trabalho, geralmente social, executado por vontade própria, sem remuneração. Mas dar um crédito à sociedade e atuar para transformar a vida de quem precisa é, antes de tudo, um exemplo de cidadania.
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