Mulheres ganham espaço em mercados de trabalho antes dominados por homens

Em 13/04/2018
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Política, artes marciais, segurança pública e música. Esses são os campos profissionais de Ivalda, Raíssa, Francine, Mônica e Roberta. O que essas mulheres têm em comum? Elas ocupam espaço de protagonismo em profissões antes dominadas por homens e que, de uns anos para cá, abrem cada vez mais oportunidades para o público feminino. Ivalda Farias é a única mulher na Câmara de Vereadores de Barreiros, na Mata Sul de Pernambuco. Eleita pelo PDT, ela precisa driblar o machismo todos os dias. “É um grande desafio, porque somos em número de 13 e eu sou a única mulher vereadora para defender a causa. E tem sido um desafio, porque, queira ou não, vivemos em um mundo muito machista ainda.”

O desafio também é enfrentado pela atleta pernambucana Raíssa Barros, mais conhecida como “Raíssa Animal”. Ela luta karatê há quase 20 anos e acredita que a disciplina ensinada pelo esporte ajudou os atletas homens a respeitarem mais as lutadoras. “Quando eu comecei, há 17 anos, ainda se tinha muito mais meninos treinando e praticando do que meninas. Hoje em dia, a gente ainda enfrenta alguns probleminhas com respeito ao machismo, mas os homens que praticam karatê são ensinados a respeitar, a mostrar igualdade.”

O mesmo acontece na área da segurança pública. A escrivã da Polícia Civil, Francine Arruda, afirma que conseguiu o respeito dos colegas na corporação, mas ressalta que ainda é preciso avançar. “Eu hoje tenho um relacionamento tranquilo com os companheiros de trabalho, mas a gente realmente sente  uma certa defesa da mulher policial no que diz respeito a sair para alguma ocorrência: ‘Não, você fica, você é mulher’.”

A desigualdade também está presente no meio musical, mas o cenário tem melhorado ao longo dos anos. Mônica Muniz, regente do Coral Vozes de Pernambuco, da Assembleia Legislativa, participou recentemente de debate na Alepe sobre o protagonismo feminino. Ela destacou os avanços no setor. “Num momento tão difícil para as mulheres, de tanta luta, de tanta batalha, de tanto sofrimento, pelo menos em um aspecto – na área musical de regência – as mulheres tem avançado e muito, a passos largos. Hoje nós temos grandes corais na cidade do Recife que são regidos por mulheres.”

A maestrina ainda acredita que a maior participação das mulheres na área de regência tem contribuído para a expansão do movimento dos corais. “Existe um mito do maestro como carrasco, aquele maestro que disciplina na força, que está sendo quebrado dia a dia. A cada dia os corais têm mais prazer em cantar, cada dia nós temos mais voluntários e corais independentes sendo criados.”

Também presente no encontro, o grupo pernambucano “Samba Soul Delas”, composto só por mulheres, mostra que é possível fazer sucesso num estilo musical em que, normalmente, são os homens que se destacam. É o que explica a integrante Roberta Pessoa. “A gente quis mostrar que mulher sabe tocar samba, que mulher tem ritmo, que mulher consegue não só trabalhar, cuidar de casa, mas que a gente sabe muito bem trabalhar com instrumento de samba. E a gente fica feliz da vida, porque vê a alegria, não só das mulheres ao nos ver tocar, mas a alegria dos homens em ficar pasmos: ‘como é que uma mulher consegue tocar um instrumento de surdo?’ ”

Mas apesar dos avanços, ainda existe muita desigualdade no mundo profissional, principalmente em relação aos salários e à ocupação dos cargos mais altos. No serviço público, por exemplo, as mulheres são maioria entre os aprovados, mas ocupam apenas 21,7% das posições de direção e assessoramento superior, segundo o IBGE. Em audiência pública que discutiu o tema na Alepe, a pesquisadora da Fundaj, Cristina Buarque, analisou os números. “As mulheres realmente penetraram profundamente no serviço público, isso não significa que elas ocupem o poder no serviço público. Essa é a grande diferença. São as grandes trabalhadores do serviço público sem dúvida nenhuma, mas nós não estamos nos cargos de decisão.”

Alterar esse quadro exige uma mudança de cultura, que conscientize tanto os homens quanto as próprias mulheres sobre a igualdade de gênero. Essa é a opinião da presidente da Comissão da Mulher da Alepe, deputada Simone Santana, do PSB. “É uma questão cultural, que está impregnada nas mulheres. Ela precisa compreender o seu papel na sociedade e a gente só consegue isso conversando, mostrando exemplos, dizendo da importância, e é esse o papel da gente aqui.”

Segundo o Ministério Público do Trabalho, nenhum critério discriminatório, como idade ou sexo, pode ser usado para a seleção de vagas ou promoções para cargos diretivos, seja no serviço público ou na iniciativa privada.