Imagine se todo dia caísse um Boeing 737 no Brasil. 120 pessoas mortas diariamente num acidente brutal. Tragédia desse porte já acontece, mas não nos ares, e sim nas ruas, avenidas e estradas do País, que está na 5ª colocação entre os recordistas em mortes no trânsito. Dispersas em todo o território nacional, as mortes acabam se tornando uma dor restrita às famílias e não causam o impacto que obrigaria pessoas e instituições a refletirem sobre o tema. E, por enquanto, não há perspectiva animadora. A OMS – Organização Mundial de Saúde prevê que a situação vai se agravar justamente nos países em desenvolvimento, como o Brasil, por causa da ampliação da frota, falta de planejamento e recursos insuficientes para a segurança das vias.
Até 2020, o planeta vive a Década de Ações para a Segurança no Trânsito, definida pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, uma forma de combater a nona maior causa de mortes no mundo. O movimento Maio Amarelo se junta a esses esforços para alertar a sociedade, propondo medidas efetivas no trânsito. O coordenador da mobilização em Pernambuco, Carlos Valle, destaca a gravidade dos acidentes. “São graves por conta da falta de formação, da falta de sinalização nas estradas e ruas, da deficiência na pavimentação e iluminação, tudo é trabalho que tem que ser feito. A gente vive numa luta para fazer a consciência das pessoas, da sociedade e das autoridades.”
De acordo com um relatório da OMS, de 2013, os principais fatores de risco são: dirigir sob o efeito de álcool, excesso de velocidade, falta do uso do capacete, do cinto de segurança e das cadeirinhas infantis.
O chefe do setor de Traumatologia do Hospital da Restauração – a maior unidade da rede de saúde pública do Estado, Eduardo Toscano, ressalta que as vítimas de acidentes de trânsito chegam com vários graus de lesão, das moderadas, como fraturas não-expostas, às gravíssimas, como perda de membros. Por melhores que sejam os medicamentos e a reconstituição cirúrgica, há pacientes que ficam marcados por sequelas para o resto da vida. Numa sociedade em constante movimento, o indivíduo se sente deslocado, inválido, o que pode gerar também repercussão psicológica. Se o sofrimento é pessoal, os gastos são coletivos e custam caro. “É um indivíduo que passa por uma hospitalização prolongada, que vai usar do sistema de saúde – seu direito, é claro – com volume muito grande. Acaba que vai uma verba imensa para esses acidentes, enquanto que outras patologias, sejam clínicas, sejam arboviroses, precisam também de recursos. Se ele terminar com algum grau de sequela, vai ser sempre um dependente do INSS”, explica Toscano.
Desde o ano passado, a Assembleia Legislativa de Pernambuco instalou a Frente Parlamentar do Trânsito e Transporte, coordenada pelo deputado Eduíno Brito, do PHS. Um dos temas abordados pelo grupo ocupa a triste dianteira entre as calamidades sobre rodas: o envolvimento de motos em acidentes, cujos gastos para os cofres públicos em geral superam R$ 1 bilhão ao ano, de acordo com a Secretaria de Saúde. O deputado propôs a presença da Alepe no Comitê Estadual de Prevenção aos Acidentes de Motos.
Vulneráveis e sem proteção nas quedas e colisões, muitos motociclistas entram direto nas estatísticas de óbito. A família de Adriano Benedito da Silva convive há sete meses com o luto pela perda do rapaz, que voltava de moto com um colega de uma festa no Interior do estado e caiu num barranco na estrada. Para Aldemir da Silva, a morte do irmão, aos 23 anos, foi um choque. “Uma coisa que até agora a gente fica pensando que não acredita. Como ele viajava muito, a gente pensa que ele está viajando e a qualquer momento vai chegar. Jovem vai para essas festas em cima de uma moto, se arriscando, não sabe que a qualquer momento vai perder a sua vida e deixar seus familiares, que é o mais importante, aqui no sofrimento.”
Esse caso se enquadra no que os números da OMS já revelam: os acidentes de trânsito são a maior causa de mortes na faixa de quinze a vinte e nove anos de idade.
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