A Frente Parlamentar em Defesa da Ferrovia Transnordestina debateu, nesta segunda, na Alepe, os entraves e perspectivas para a retomada do empreendimento. A Transnordestina foi idealizada para facilitar a integração aos portos e o escoamento de grãos, minérios e outros produtos da região. As obras foram iniciadas nos anos 2000, mas acabaram paralisadas há mais de uma década. O projeto enfrentou problemas financeiros, dificuldades de licenciamento, entraves fundiários e sucessivas revisões.
Coordenador da Frente Parlamentar, o deputado João Paulo, do PT, classificou a ferrovia como uma obra estruturante, ressaltando que a paralisação trouxe impactos logísticos ao Estado. “A conclusão do trecho até Suape não é apenas uma questão de infraestrutura, é uma transformação estrutural, é a integração do interior produtivo ao litoral, é a redução de custos logísticos, é a geração de emprego, renda e oportunidades, é justiça territorial.”
O Governo Federal iniciou, em 2025, a licitação para retomar as obras, com investimento inicial de cerca de R$450 milhões pelo Novo PAC. A Infra S.A., estatal vinculada ao Ministério dos Transportes, venceu o processo e assumiu o trecho pernambucano. São cerca de 540 quilômetros que ligam Salgueiro, no Sertão Central, ao Porto de Suape. O representante da Infra S.A., André Ludolfo, afirmou que o trecho tem apenas 38% de execução concluída. Há entraves fundiários e indefinições de traçado.
O presidente da Fiepe, Bruno Veloso, atribuiu o atraso da Transnordestina a decisões políticas e interesses econômicos ao longo dos anos. Ele destacou a priorização de outros trechos, especialmente em direção ao Ceará. “A gente vê que isso foi uma coisa planejada há muito tempo, não se começa uma rodovia do meio pro fim, nunca se viu isso. A gente pode achar que isso é um erro estratégico dos nossos engenheiros? Não. Isso é uma decisão política.”
O superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, resgatou o histórico de enfraquecimento do sistema ferroviário brasileiro. Ele afirmou que a Transnordestina voltou a ganhar impulso no atual governo Lula. “A estrada se paga pelo desenvolvimento, pelo transporte mas também pelo benefício social. Isso é uma tarefa típica de Estado, porque se ele não existe para isso, para quê, Estado?”
O ex-prefeito de Bonito, no Agreste Central, Laércio Queiroz, representante do Consórcio de Municípios do Agreste e Mata Sul, fez críticas à falta de recursos e à atuação da classe política pernambucana. Segundo ele, o orçamento previsto é insuficiente. “Enquanto o Ceará está funcionando já agora, a nossa perspectiva de funcionamento é 2030, se tudo der certo e isso significa: se Lula ganhar a eleição e tiver força política suficiente para mobilizar a sociedade de forma que pressione os deputados para que eles botem dinheiro e agora não apenas de emendas, que ainda é pouco, tem que suplementar o orçamento.”
Representantes da sociedade civil cobraram participação nas decisões e comentaram os impactos sociais e ambientais da obra. Eles pediram a inclusão das comunidades nos debates e destacaram preocupação com as desapropriações e prejuízos ambientais, sobretudo em áreas de mangue e comunidades tradicionais. É o caso, por exemplo, de Marinalva Maria, do Quilombo Ilha de Mercês, em Ipojuca. “Tirou de nós, da nossa pesca, sururu que não tem mais, marisco, camarão, tirou tudo, nossos direitos de ganhar com tudo isso. E essa derrota desse minério vai terminar de acabar com tudo. Vocês não pensam em nós pobres, em nós negros, só pensa no voto quando é pra subir.”
O deputado João Paulo anunciou a indicação para a governadora Raquel Lyra de um requerimento sugerindo a criação de um grupo de trabalho para acompanhar as obras da Transnordestina.
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