Os estudantes Aldinet Costa e Diego Silva, de 19 e 20 anos, são moradores do Alto do Magano, um dos bairros mais populosos de Garanhuns, no Agreste Meridional. Os dois têm algo em comum: desde criança, participam como atores da peça “Jesus, Alegria dos Homens”, um dos espetáculos que encenam a Paixão de Cristo no Interior de Pernambuco. Mais do que a chance de pisar num palco, o trabalho representa para eles a oportunidade de sair das ruas de uma comunidade apontada como violenta. É uma alternativa para mudar de vida, como relata Diego. “Eu era uma pessoa quase morador de rua, mas hoje eu estou muito bem. O espetáculo também mudou muitas coisas, me ensinou muitas coisas.” Opinião reforçada por Aldinet. “Na rua você tá fazendo o que não presta, no espetáculo não, você tá ali reunido com o povo do espetáculo, está ali fazendo aquilo, e aprendendo.”
O radialista Gerson Lima, diretor da peça desde a criação em 1980, destaca que, dos 150 envolvidos com o evento, aproximadamente 80 são do bairro. Ele ressalta a importância da apropriação do espetáculo pela comunidade. “Dá o sentido de pertencimento. A comunidade onde se realiza o espetáculo é uma comunidade pobre, com menores em conflito com a lei, e nós ao longo do tempo viemos integrando essas pessoas ao espetáculo.”
Pelo Interior afora, as apresentações na Semana Santa envolvem famílias inteiras. É o caso, por exemplo, do vigilante Ivanildo Monteiro, o Cigano, que desde 1995 participa da “Paixão de Salgueiro”, no Sertão Central. Em cena, ele, que representa Judas, é acompanhado pela esposa e por duas das três filhas, além do futuro genro. “É muito gratificante também, ver minhas filhas, que nasceram no grupo, estão fazendo teatro junto comigo. É uma paixão da família toda.”
A filha mais nova, Kaylane Monteiro, de 14 anos, ainda sente um frio no estômago quando vai entrar em cena, mas sempre se emociona com o espetáculo. “Dá um pouco de frio, mas já é de costume. Tem uma parte, que é no final, que é quando vão tirar Jesus da cruz e entregam pra Maria, e Maria começa a chorar, aí nessa parte eu me emociono.”
Fazer teatro nos municípios não é fácil, mas a autora e produtora Francisca Alves Brito, responsável pela peça em Salgueiro, vai driblando as dificuldades. “Teatro não é barato, por mais que você tente trabalhar com coisas mais alternativas, até reciclagem. É a falta de incentivo financeiro mesmo. Essa é a pior dificuldade.”
No município, o cenário tem como base uma área ao ar livre na antiga estação ferroviária e aproveita pedras e vegetação sertanejas para recriar a antiga Jerusalém. É o que explica o restaurador de arte sacra e cenógrafo, Wellington Santeiro, responsável pelos cenários de espetáculos em Salgueiro e em Ponte dos Carvalhos, na Região Metropolitana do Recife. “Embora estejamos retratando a vida de um homem que viveu há 2 mil anos atrás, e de uma outra região, no outro lado do mundo, 2:08 o lado afetivo pesa muito. As pessoas vem com fé.”
Responsável pela Companhia de Teatro Imaginarte, com sede em Petrolina, no Sertão do São Francisco, o diretor Wellington Amorim também ressalta a importância social dos espetáculos. “A adaptação é feita buscando inserir problemas da atualidade: violência, questões sociais, preconceito.”
Neste ano, o grupo itinerante está se apresentando com a peça “Jesus de Nazaré, uma História de Amor” no pátio de eventos do bairro de José Maria, em Petrolina, e nos municípios de Santa Cruz, no Sertão do Araripe, e Parnamirim, no Sertão Central.
Atualmente, as encenações da Paixão de Cristo estão espalhadas por municípios das mais diversas regiões. Isso ajuda na interiorização do teatro. É o que diz a presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão (Sated) em Pernambuco, Ivonete Melo. “Além de estar levando entretenimento, está formando também plateia.”
Outros benefícios são o desenvolvimento do comércio local e a geração de empregos. O eletricista Elias Fidélis, que há 19 anos é iluminador em Garanhuns, conta que a peça de teatro ajudou a formar dois profissionais inseridos no mercado. “Levei pra lá como meus auxiliares, tomaram gosto pela profissão, fizeram o curso e hoje todos dois trabalham como eletricistas profissionais.”
Os espetáculos da Paixão de Cristo são gratuitos e ainda há tempo para assistir o da sua cidade.
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