Escola e família devem ser espaços para incluir jovens na discussão política

Em 01/04/2016
-A A+

As manifestações dos dias 13 e 18 de março reuniram visões opostas sobre um quadro político complexo. Muitos adolescentes estiveram presentes, mas um número ainda maior ficou em casa. O professor de história e filosofia Creso Nuno trabalha há cinco anos no Ensino Médio estadual. Ele acredita que a descrença na política tradicional leva grande parte dos jovens a fugirem da polarização entre grupos partidários. “Apesar de existir um discurso muito difuso – e que os alunos reproduzem -, muitos deles fogem disso e tentar compreender a partir da realidade deles. É como se essas manifestações não os representasse, seja favorável ou contrário ao Governo.”

Mas para essa descrença não se tornar alienação, é preciso incentivar a cidadania. A professora de psicologia da Unicap, Consuelo Passos, defende que a família introduza a discussão política em casa. “É importante que a família tenha uma abertura com os filhos para que esse tipo de debate, que não é político-partidário e sim com vistas para a inserção do sujeito na vida pública, na formação de um cidadão. Creio que não há uma idade específica porque penso que o cidadão já se faz desde que nasce, ele não é formado apenas na adolescência. Embora nessa época haja uma preocupação maior, uma inserção na participação maior ou uma curiosidade maior.”

A professora de história e sociologia Viviane Araújo também trabalha no Ensino Médio e promove um grupo de discussão de ciências humanas na escola onde leciona. Ela aponta que a falta de base familiar e educacional impede muitos adolescentes de acompanhar o noticiário de forma crítica. “Muitos temas que a gente abre para discussão, os alunos carecem absolutamente de qualquer base. Eles lidam com várias informações conflitantes, e muito do que eles têm acesso, é sem uma crítica positiva no sentido de questionar o que faltou na informação ou de onde está sendo direcionada essa informação.”

Segundo dados do Governo Federal, em 2015, 65% dos jovens até 25 anos acessaram internet todos os dias. O Facebook e o Whatsapp foram as principais plataformas de interação. O especialista em mídias sociais, Willian Araújo, avalia que é positiva a pluralidade da comunicação em rede, mas aponta que também há riscos. “Cria o que muitas pessoas chamam de ‘bolha de informação’ ou ‘bolha biológica’. A gente acaba tendo uma visão um pouco deturpada do que é um ‘tudo’ da sociedade. Por exemplo: quando eu sou amigo de mais pessoas a favor de uma determinada causa, automaticamente, é provado que eu devo ver mais conteúdo relacionado a essa causa, o que faz com que eu tenha a percepção de que todo mundo concorda comigo – ou pelo menos a maioria das pessoas.”

Em meio a tantas barreiras para a compreensão do mundo, a escola não é suficiente para a construção do senso crítico, mas é um espaço essencial para a transmissão de ferramentas teóricas. É o que acredita a professora Viviane. “O que a gente procura informar é a base formal: os principais teóricos, os requisitos da formação do Estado, dentro da sociologia e da ciência política, e como esse Estado vai se modificando ao longo do tempo.”

O professor Nuno vê, apesar de todas as dificuldades do ensino brasileiro, uma ascensão da consciência política dos estudantes. Ele afirma que não devemos ver os adolescentes como futuros cidadãos, mas como agentes capazes de compreender e transformar a realidade em que vivem. “A gente as vezes não imagina e não dá o devido valor à atuação do jovem no meio em que ele vive. E a capacidade de influenciar também, inclusive em casa. Então, especialmente no caso de famílias de renda mais baixa, que os pais têm pouca escolaridade, eles terminam escutando, também, as opiniões dos filhos.