Ensino superior em questão: dificuldades para escolher a carreira e concluir a graduação

Em 09/03/2018
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Dos onze milhões de estudantes brasileiros que cursavam o ensino superior em 2016, mais de três milhões tiveram a matrícula encerrada ou trancada, de acordo com o Ministério da Educação. As causas podem variar da impossibilidade de pagar as mensalidades à falta de afinidade com a carreira. É o caso, por exemplo, do estudante Carlos Filizola, de 24 anos, que largou a graduação em História, faltando apenas um semestre para terminar. Agora, ele está perto de concluir o curso de Produção Fonográfica. “Eu queria fazer música, desde sempre, só que para entrar em Música você tem que saber solfejo. Aí eu fiz umas aulas ainda, mas não gostei. Aí eu tinha que fazer alguma coisa, né? É mais por isso do que gostar mesmo. É mais uma pressão da sociedade também, de você dizer que faz alguma coisa.  E a coisa da escolha, da pressão, de ser rápido… É chato.”

Para auxiliar os futuros universitários a escolher com o que trabalhar, existe a orientação vocacional. O acompanhamento é prestado por pessoas especializadas, que realizam testes e atividades conectadas com as preferências e habilidades do estudante, para direcioná-lo a uma área de atuação que atenda ao perfil. A psicóloga Ana Cleide Jucá trabalha com orientação vocacional no Recife. Ela destaca algumas dificuldades dos jovens para decidir qual caminho tomar. “É principalmente falta de maturidade para realizar essa escolha, até pela idade que a maioria precisa escolher. Também porque no nosso país não tem investimento em educação para a carreira. A nossa educação é muito conteudista, então não tem como o jovem se experimentar em situações de trabalho. E falta, também, muito autoconhecimento.”

O apoio e a orientação da família são essenciais. Muitos jovens se sentem pressionados pelos parentes a seguir uma carreira com a qual não se identificam e acabam desistindo no meio do processo. A psicóloga Ana Cleide Jucá ressalta ainda a importância de o jovem ter noção do projeto de vida. “Eles, às vezes, relacionam erroneamente a matéria que gostam de estudar na escola com o que vão gostar de fazer. Tem que se inteirar mais do cotidiano da profissão, do que realmente vai exercer e, principalmente, saber se essa profissão vai se encaixar dentro daquilo que ele deseja para a vida dele como um todo.”

A médica Andrea Lacerda, de 30 anos, passou por esse conflito. No ensino médio, ela tinha como uma das disciplinas preferidas a biologia, curso que escolheu quando prestou vestibular. Já perto da formatura, Andrea largou o Bacharelado em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Pernambuco para estudar medicina. “Quando eu comecei a estagiar, eu comecei a perceber que não era aquilo que eu queria para minha vida porque o biólogo, ele vive essencialmente de pesquisa. Só que fazer pesquisa no Brasil é uma coisa absurdamente difícil. Lógico que eu também fiquei com medo de não ganhar dinheiro, né. Então, eu decidi ir para outra profissão que pudesse aliar uma coisa prática com uma vida financeira mais estável e que pudesse aliar a biologia, que era o que eu gostava de estudar.”

A preocupação com o mercado de trabalho também motivou o consultor de franquias Sílvio Benning, de 34 anos, a trocar a graduação em História por Publicidade“Eu via uns colegas de colégio já trabalhando, já tendo uma certa condição financeira um pouco melhor do que a minha na época, por escolhas diferentes do curso. Eu deveria migrar ou para pesquisa ou para dar aula. Os professores, apesar de eu ter uma admiração imensa, ganham muito pouco no nosso país. Então, eu comecei a pensar para onde migrar, para atrelar tanto a parte do gosto, do amar o ofício, quanto a recompensa financeira.”

O professor Assis Leão, pró-reitor de ensino do Instituto Federal de Pernambuco, IFPE, vê a evasão como um fenômeno mundial e um desafio para a educação superior. Ele aponta a dificuldade econômica como um fator determinante para o abandono dos cursos em Pernambuco. A grande agenda da educação superior hoje é permanência e êxito. Os estudantes abandonam, pelo que a gente vem observando no contexto atual aqui, em nosso estado, por questões econômicas, no sentido de se manter nos cursos. Isso demanda muito investimento, as famílias são carentes, elas não têm esses recursos. Então, a permanência do estudante está totalmente articulada à questão do sucesso das políticas de assistência estudantil, sobretudo nas instituições de educação superior federais.”

De acordo com o Ministério da Educação, mais de oitenta e seis mil matrículas em cursos de graduação foram trancadas ou encerradas em Pernambuco, no ano de 2016. Para tentar minimizar o problema, existem políticas de financiamento estudantil, um dos assuntos da próxima reportagem da série “Ensino Superior em questão”.