45 anos depois, o “Samba do Engarrafamento”, de João Só, ainda retrata um dilema atual. São casos como o do servidor público Pedro Araújo, que todo dia deixa o carro na garagem. Ele vai trabalhar de ônibus e volta a pé. O trajeto, de Joana Bezerra, na região central do Recife, à Tamarineira, na Zona Norte, dura uma hora e quinze minutos de caminhada. “Como eu venho em torno de meio-dia, a ida não chega a ser incômoda, por isso eu opto pelo ônibus. A minha decisão foi principalmente pela volta, que pode ser muito transtornante. O carro geralmente eu deixo encostado, durante o dia, por conta dos problemas de trânsito mesmo.”
O Dia Mundial Sem Carro, celebrado em 22 de setembro, foi criado na França, em 1997, e ganhou o mundo, apoiado na luta pela mobilidade urbana. Especialista no assunto, o professor de engenharia da UFPE, Maurício Andrade, explica essa expressão. “Uma mobilidade que dê prioridade à maioria ou ao transporte público, com adequado conforto, regularidade e tarifas acessíveis. Com adequada fluidez, com velocidade compatível com a segurança dos usuários mais vulneráveis como pedestres e ciclistas. E uma gestão da manutenção das vias e passeios, que garanta adequadas condições de circulação.”
No Brasil, o Dia Mundial Sem Carro recebe destaque desde de 2001. O objetivo é propor uma reflexão sobre o uso exagerado dos automóveis.
Em Pernambuco, de janeiro a julho deste ano, foram 56 mil carros a mais em circulação, segundo o Detran. A frota do Estado chega a quase 1 milhão e 300 mil unidades. O Recife ocupa a terceira posição, entre os piores congestionamentos do Brasil, e o oitavo lugar no ranking mundial. De acordo com essa pesquisa, feita pela empresa TomTom, da Holanda, quem enfrenta o trânsito da capital pernambucana gasta, por dia, 44 minutos a mais do que seria necessário para o trajeto.
A bicicleta é uma opção de transporte que vem ganhando cada vez mais adeptos no Recife. Nos dias úteis, as vias dedicadas aos ciclistas somam 41 quilômetros. Quem pedala aos domingos e feriados conta com mais 36 quilômetros de ciclofaixas temporárias. Os números são do site da Prefeitura. Um dos coordenadores gerais da Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife, a Ameciclo, Pedro Luiz Barreto aponta que falta infraestrutura para que mais gente adote as bicicletas como meio de transporte. “Recife é uma cidade que tem muitas condições para abraçar a bicicleta, mas ainda não abraça. Primeiro, você constrói a estrutura cicloviária para contemplar os ciclistas, e então eles aparecerão.”
A grande quantidade de carros traz outros problemas, como a poluição. Professor de física do IFPE em Pesqueira, no Agreste Central, Alexandre Valença pesquisou a emissão de gases veiculares no Recife e constatou uma tendência de aumento para os próximos anos. “O que se pode fazer em relação a melhorias tecnológicas para reduzir é muito pouco, em comparação ao crescimento da frota, porque a população cresce muito rápido. Se a população continuar crescendo, e a busca por automóveis continuar como acontece hoje, a perspectiva é só de crescimento total de todos os poluentes.”
Para as pessoas abrirem mão do carro, a relação com a cidade precisa mudar. É o que defende o secretário executivo de planejamento da mobilidade do Instituto Pelópidas Silveira, Sideney Schreiner. “Hoje, as pessoas têm praticamente relações de afeto com seus automóveis, enquanto a cidade é relegada a um segundo plano. A gente precisa modificar essa situação. Qualidade de vida não é um bom ar condicionado num carro novo. Qualidade de vida é você usufruir do espaço verde da cidade, interagir com as outras pessoas…”
Uma das medidas que podem ajudar a melhorar isso é o Plano de Mobilidade do Recife, que está em elaboração. O documento é produzido pelo Instituto Pelópidas Silveira, com a colaboração de especialistas e da população.


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