Máquinas de costura e pilhas de panos amontoados dividindo o mesmo espaço com crianças e baratas, em uma pequena sala suja sem janelas e com instalações elétricas precárias. Foi assim que imigrantes bolivianos foram encontrados por fiscais do trabalho, no ano passado, em São Paulo. O grupo trabalhava em oficinas que produziam peças de roupas para grifes de luxo ao custo unitário de cinco reais. Nas lojas, as peças eram vendidas por preços até cem vezes maior. Os trabalhadores costuravam por mais de doze horas por dia e dormiam com suas famílias no mesmo local onde produziam.
Segundo a procuradora do Ministério Público do Trabalho em Pernambuco, Débora Tito, jornadas exaustivas e condições degradantes, além de trabalho forçado e servidão por dívida, são características que configuram situação análoga ao trabalho escravo.
“Muita gente acha que o trabalho escravo é aquela figura do negro acorrentado no pelourinho sendo açoitado. Não é. O trabalho escravo contemporâneo é o barateamento da mão de obra ao ponto do trabalhador se tornar uma coisa. E esse barateamento da mão de obra é ganância.”
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil, o Brasil tem o quarto maior parque produtivo de confecção no mundo, e emprega cerca de um milhão e meio de trabalhadores diretos. No ano passado, o faturamento do setor foi de 45 bilhões de dólares. A ONG Repórter Brasil, que monitora cerca de cem empresas de roupas que operam no País, aponta que nos últimos oito anos pelo menos 37 marcas já foram responsabilizadas pela exploração de mão de obra análoga à escrava.
Para incentivar o trabalho digno nas confecções, a Associação Brasileira do Varejo Têxtil oferece um programa de responsabilidade social a empresas do setor. O diretor-executivo da entidade, Edmundo Lima, explica que os benefícios de quem participa atingem não apenas as oficinas, que passam a atuar dentro da lei, mas também o próprio lojista, que além de ter a garantia da origem do produto, melhora a relação com o fornecedor. Mas ele acredita que ainda há muito mais a ser feito.
“É uma cadeia longa, com milhares e milhares de empregos participando, então nós estamos ainda na fase de avaliar a confecção. Já temos algumas indústrias têxteis também que passam por esse processo de certificação – indústrias têxteis e de fiação – mas a ideia é ter toda a cadeia certificada e com essa garantia de responsabilidade social e de não precarização do trabalho ao longo da cadeia produtiva.”
Para Marina Colerato, fundadora do site Modefica, uma plataforma que questiona a abordagem meramente estética e de consumo da moda, é difícil escapar da lógica econômica em que estamos inseridos, em que pelo menos em algum ponto da cadeia produtiva, existe alguma forma de exploração do trabalho humano. Para ela, uma mudança efetiva só vai acontecer por meio de políticas públicas e legislação.
“A gente precisa de benefícios para produtores familiares, para cooperativas de costura, de benefícios e políticas públicas que beneficiem empresas que estão realmente comprometidas com a pauta, que estão limpando suas cadeias produtivas. E a gente precisa de punições severas para quem está descumprindo.”
Mas, diante da dificuldade em se alcançar esse patamar no curto prazo, Marina acredita que o consumo consciente pode ser um primeiro passo.
“Há todo um sistema por trás que garante que as coisas funcionem do jeito que elas funcionam, que garante que nós tenhamos desejos de consumo o tempo todo, que garante que a nossa única relação com o outro seja por meio da compra ou por meio de produtos.”
A ideia é compartilhada pela bióloga Maria Alice Loreto. Há cerca de dois anos, ela abraçou o veganismo e passou a questionar não apenas a exploração dos animais, mas também a do ser humano.
“Para mim, o consumo consciente significa que eu vou examinar o produto a ser consumido, então eu me coloco no papel de protagonista da rede de consumo, já que sem o consumidor o sistema não gira.”
Maria Alice afirma que sempre busca se informar sobre o histórico das lojas onde compra, e dá preferência a produtores menores e locais, especialmente a mulheres. Ela também ressalta a importância de questionar a real necessidade de uma compra.
“O que mais é importante na minha vida agora é refletir como eu posso diminuir o consumo geral, de tudo, por uma questão tanto do bem estar humano como também da conservação do planeta.”
Muitas pessoas também realizam trocas, compram em brechós, ou oferecem serviços de conserto e reciclagem de roupas usadas como alternativas à moda rápida e ao consumo desenfreado.
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