Brasil amarga queda na procura por vacinas

Em 29/03/2019
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Tomar uma vacina pode parecer uma escolha individual, mas desse ato depende a saúde de toda a coletividade. A queda da procura pela tríplice viral, por exemplo, representou o retorno do sarampo, doença que pode matar ou deixar sequelas graves, como redução da capacidade mental, cegueira e surdez. O Brasil saiu de zero casos em 2016 para mais de 10.200 notificações no ano passado. Esse registro coincide com a queda da cobertura vacinal. Apenas 85% do público alvo recebeu a imunização em 2017, uma redução de dez pontos percentuais em relação aos anos anteriores.

Chefe do Ambulatório de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas da UFPE, o médico Paulo Sérgio Ramos explica porque essa retração é tão significativa. “Se a gente não consegue atingir essas coberturas vacinais, em torno de 95%, a gente sempre vai estar acumulando um grupo de pessoas imunologicamente vulneráveis que, ao entrar em contato com os agentes infecciosos, poderão vir a desenvolver essas doenças”.

O Programa Nacional de Imunização do Brasil, PNI, é referência internacional de política pública de saúde. Conseguiu erradicar doenças como a varíola e a paralisia infantil e oferece todas as vacinas recomendadas pela OMS. De acordo com o portal do Ministério da Saúde, são 27 vacinas, 13 soros e 4 imunoglobulinas, distribuídos gratuitamente em 36 mil salas de vacinação espalhadas pelo território nacional.

Em Pernambuco, a coordenadora estadual do PNI, Ana Catarina Melo, começou a observar uma queda na procura em 2016. No ano seguinte, só a BCG dada aos recém-nascidos atingiu a cobertura ideal de 95%.  Ela acredita que o programa de vacinação é vítima do seu próprio sucesso. “Quando as pessoas passaram a não ver mais ninguém doente, elas acharam que não era mais importante se vacinar”.

As vacinas tomadas pela criança nos primeiros 12 meses de vida possuem os melhores índices. Depois do primeiro ano, a adesão cai, e piora ainda mais para as doses de reforço.  Ana Catarina enfatiza que a imunização só está completa com todas as doses do esquema. E reforça que é necessário compreender que vacina não é apenas coisa de criança. “O adulto ele precisa fazer o reforço contra o tétano, a vacina contra a hepatite B foi implantada para a população adulta a partir de 2010, a vacina contra o HPV e a meningocócica é para os adolescentes”.

Uma das ações estudadas para aumentar a procura é ampliar o horário de funcionamento dos postos de saúde. Outro fator que preocupa os especialistas é o chamado “movimento antivacina”, composto por pessoas que colocam em dúvida a eficácia e segurança dos imunizantes disponíveis.  O fenômeno é mundial e aparece na lista da OMS como uma das 10 maiores ameaças à saúde global. Cresce com o aumento das migrações e a velocidade de disseminação de notícias via redes sociais.

O coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça em Defesa da Saúde do Ministério Público de Pernambuco, promotor Édipo Soares, acredita que o caminho para combater notícias falsas e conscientizar as pessoas passa por ações educativas.

Mãe do pequeno Guilherme, de três anos, a engenheira Natally Fritz faz questão de manter em dia as vacinas do filho. “Eu sei que o sistema de imunização do Brasil é conhecido mundialmente, é respeitado mundialmente, e é um retorno nosso também dos impostos que nós pagamos”. A campanha anual de vacinação contra a gripe, prevista para começar em meados de abril, vai ser uma boa oportunidade de atualizar a carteira.