Avanços tecnológicos revolucionam mercado de trabalho e devem criar novas profissões

Em 07/06/2019
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Imagine um robô que substitui o advogado na busca por julgamentos, ou uma máquina capaz de produzir uma calça jeans em menos de 40 segundos. A chamada “Quarta Revolução Industrial” promete acelerar em velocidade nunca vista o uso da internet das coisas e da inteligência artificial nas linhas de produção. Mas a substituição da mão de obra pode não ser, necessariamente, sinônimo de desemprego. Um relatório do Fórum Econômico Mundial garante que o fenômeno pode criar 133 milhões de novas vagas até 2022. A preocupação é como formar profissionais para esse novo mercado de trabalho. Diretor da Sociedade dos Usuários da Tecnologia de Pernambuco, entidade que acompanha setor em TI desde a década de 1970, Romero Guimarães acredita que o diploma universitário vai perder o valor diante de outras habilidades. “A pessoa vai ter que viver em aprendizado contínuo, não existe mais terminar estudo. Ele vai ter que trabalhar muito a criatividade, não adianta mais ficar fazendo coisa repetitiva. A capacidade de resolver problemas: isso é o que diferencia as atividades humanas das atividades de máquina e de software. E, por fim, as pessoas vão ter que ter uma noção muito mais forte de empreendedorismo e aplicar isso no seu dia a dia”.  

Um estudo do Serviço Nacional de Aprendizado Industrial, Senai, divulgado no ano passado, apontou que pelo menos 30 novas profissões vão surgir em segmentos como construção civil, indústria têxtil, setor automotivo e comunicação. O cientista-chefe do Parque de EletroEletrônico e Tecnologias Associadas, Parqtel, Carmelo Bastos, observa que a indústria local já necessita de profissionais capacitados em áreas que não se desenvolveram ainda. “Esses empregos, na verdade,  eles são empregos que tem maior qualificação e também maior renda. Então talvez o desafio seja: como podemos criar as condições para que tenhamos mais empresas de tecnologia que possam prover empregos de melhor qualidade?”

O Parqtel conta com um projeto piloto de residência tecnológica. A primeira turma, iniciada em fevereiro, segue um programa desenvolvido com base em problemas reais enfrentados pelas empresas. Na mesma linha, o Porto Digital, Organização Social que congrega mais de 300 empresas de tecnologia instaladas no Recife, anunciou curso de formação para formar profissionais que possam preencher 900 vagas acumuladas nos últimos cinco anos. Essas são apenas amostras da demanda para o futuro na avaliação do coordenador de Indústria 4.0 da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, ABDI, Bruno Jorge Soares. Ele classificou de tímida a chegada da quarta revolução industrial no país.  “Segundo alguns estudos da Confederação da Indústria do Brasil e da própria ABDI, cerca de 40 a 45% das indústrias não conhecem tecnologias digitais, nenhuma tecnologia.” O gestor acredita que muitas empresas não estão dispostas a realizar grandes investimentos em tempos de crise.

Desde abril, a Assembleia Legislativa de Pernambuco tem se reunido com especialistas para debater os efeitos da quarta revolução industrial no estado. Coordenador do Colegiado, o deputado João Paulo, do PC do B, teme que a criação de vagas não alcance todos os trabalhadores substituídos pela inteligência artificial. “É uma questão que pode se tornar de uma gravidade absoluta para a maioria do povo brasileiro e principalmente a classe trabalhadora. Tanto para os jovens que estão acessando o mercado de trabalho quanto para trabalhadores de funções que vão ser extintas”.

A psicóloga Juliana Barros aposta no desenvolvimento de habilidades socioemocionais para preparar jovens de uma comunidade do bairro do Pina, Zona Sul do Recife, para um mercado em constante mudança. “Eles vêm, inicialmente, para o projeto pensando apenas: ah, eu tenho que fazer uma faculdade. Mas, hoje, nós temos uma gama de possibilidades, né? Uma outra questão também: apesar de estarmos na era da automação, outras competências estão sendo valorizadas, como, por exemplo, as competências vinculadas à assertividade, à empatia, à resiliência.”

Apostar no que diferencia o ser humano da máquina é o caminho para sobreviver.