
SAÚDE – Participantes reforçaram a importância do fortalecimento da prevenção e da atenção primária. Foto: Nivaldo Francisco
O avanço da doença renal crônica e os desafios no acesso ao diagnóstico e tratamento em Pernambuco foram tema de audiência pública realizada pela Comissão de Saúde da Alepe, nesta segunda (30). O debate reuniu especialistas, gestores e representantes da sociedade civil, que reforçaram a importância do fortalecimento da prevenção e da atenção primária.
Leia a reportagem: Lei estadual busca conter avanço das doenças renais em Pernambuco
Ao presidir o debate, a deputada Socorro Pimentel (União) ressaltou a importância do diagnóstico precoce. “Em Pernambuco, como em todo Brasil, observamos o crescimento dos fatores de riscos associados a doenças como hipertensão e diabetes, o que torna ainda mais urgente a ampliação do debate sobre prevenção, diagnóstico e acesso a tratamento adequado”, disse.
Comorbidades
Em 2024, um boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde revelou que aproximadamente 10% dos brasileiros convivem com doença renal crônica (DRC). Diante desse quadro, a Alepe aprovou a Lei nº 18.790/2024, que cria a Política de Prevenção de Doenças Renais no estado. A medida tem como finalidade reduzir a ocorrência dessas doenças, elevar a qualidade de vida dos pacientes e minimizar os impactos sociais e econômicos associados a essas condições.

ESPECIALISTA – Vanessa Pirolo expôs custos bilionários com diabetes, obesidade e doenças renais. Foto: Nivaldo Francisco
Presidente da Federação das Associações dos Institutos de Diabetes e Obesidade (Vozes do Advocacy), Vanessa Pirolo destacou a gravidade do diabetes e da obesidade no Brasil — condições que estão entre as principais comorbidades associadas às doenças renais. Segundo ela, o diabetes atinge cerca de 16 milhões de pessoas no país, enquanto a obesidade já alcança quase 50 milhões, gerando custos superiores a R$ 260 bilhões por ano.
Ela também citou dados do Datasus sobre as complicações associadas à doença: 49% dos pacientes apresentam problemas de visão, 25% desenvolvem doenças cardiovasculares e 10% têm nefropatia diabética. Vanessa alertou ainda que os gastos com doenças renais podem chegar a R$ 7 bilhões por ano no país.
O principal problema, segundo ela, é a falta de acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos que permitam controlar a função renal com o uso de medicamentos, evitando a progressão da doença. Sem esse acompanhamento, muitos pacientes acabam necessitando de hemodiálise, um serviço que já opera no limite da capacidade diante da escassez de equipamentos frente à demanda.
Nesse sentido, Vanessa defendeu maior investimento na atenção primária, especialmente na atuação de clínicos, para prevenir o agravamento dos pacientes e conter comorbidades desde o início. Sugeriu ainda iniciativas como as carretas de saúde, que levam serviços de exames e acompanhamento a regiões com pouco acesso.
Fila de espera
Presidente da Associação dos Diabéticos e Familiares de Petrolina (Sertão do São Francisco), Francisco Luiz relatou a situação crítica da atenção à saúde renal no município. Segundo ele, durante uma campanha de exames de creatinina realizada em 27 de março, na Unidade de Saúde Lia Bezerra, 40% das pessoas testadas apresentaram indícios da doença em estágio inicial.

PREVENÇÃO – Deputada Socorro Pimentel defendeu a ampliação do diagnóstico precoce. Foto: Nivaldo Francisco
“Hoje, Petrolina tem 518 pessoas na fila à espera de uma consulta. Com uma população de cerca de 400 mil habitantes, contamos com apenas um nefrologista na rede municipal. Na rede estadual, a profissional se aposentou. Foi aberto edital para contratação, mas, até o momento, não houve interessados”, afirmou.
Médica nefrologista e coordenadora do serviço de nefrologia do Hospital das Clínicas da UFPE, Ana Paula Gueiros, destacou que Pernambuco lidera o ranking nacional de transplantes de rim, o que ajuda a amenizar a situação da doença renal no estado. No entanto, ela ressaltou que ainda existem desafios significativos, especialmente devido à escassez de pontos de hemodiálise e à ainda menor oferta de diálise peritoneal.
Governos
Órgãos dos Governos Federal e Estadual responderam os questionamentos. Superintendente do Ministério da Saúde em Pernambuco, Rosano Carvalho explicou que o programa Agora Tem Especialista busca ampliar o acesso a consultas, exames e procedimentos, suprindo lacunas na atenção especializada e promovendo a formação de novos médicos.

MINISTÉRIO – Rosano Carvalho detalhou ações para ampliar consultas e exames no SUS. Foto: Nivaldo Francisco
O programa também concede um crédito que pode ser usado para compensar as dívidas dos planos de saúde com o SUS, como nos casos de atendimentos realizados pelo SAMU, desde que haja ampliação do acesso aos serviços.
“Esse plano de saúde precisa ressarcir ao Sistema Único de Saúde essa despesa. Isso não é pago, é uma dívida bilionária. Com o programa, é possível chamar essas operadoras e questionar que tipo de serviços adicionais — como consultas, exames, atendimentos e cirurgias — podem ofertar à população atendida pelo SUS. Em contrapartida, elas recebem créditos que podem ser usados para abater essa dívida”, pontuou.
Diretora da linha de Cuidados de Diabetes e Hipertensão da Secretaria de Saúde de Pernambuco, Ana Paula Silva citou programas como o Planifica e a Caravana da Prevenção de Doença Renal Crônica, que integram atenção primária, educação permanente e acompanhamento contínuo dos pacientes, permitindo uma gestão mais eficiente da linha de cuidado.
Silva também destacou o esforço do estado para ampliar a capacidade assistencial e formar profissionais especializados. Quanto às consultas e transplantes, ela explicou que protocolos e telemedicina estão sendo implementados para melhorar a triagem e encaminhamento de pacientes, além do aumento na formação de novos profissionais pelos programas de residência.
O deputado João Paulo (PT) reforçou a necessidade de uma política preventiva às doenças renais, incluindo uma reforma na cultura alimentícia do Brasil. “Nós vamos continuar nessa trincheira revolucionária na defesa da vida do nosso povo, e vida com qualidade”.
COMO CHEGAR