Helena Alencar
Ao prestar vestibular, os jovens se deparam com inúmeros desafios: a alta concorrência, a rotina intensa de estudos, o deslocamento, a ansiedade no dia da prova e, muitas vezes, o acesso às informações. Editais longos, confusos, com termos incompreensíveis podem atrapalhar os estudantes e até levá-los a cometer erros na hora da inscrição ou da matrícula.

VESTIBULAR – Gabriel Dias teve dificuldades com edital: “Linguagem técnica, burocrática”. Foto: Gabriel Costa
Para solucionar esse problema, neste ano, o Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) passou a apresentar uma versão do edital do vestibular em linguagem simples. Trata-se de uma técnica de comunicação que adota textos claros e diretos, além de outros recursos visuais, para que qualquer pessoa consiga entender e usar a informação facilmente.
“A gente viu a oportunidade de aplicar uma solução interessante a um problema já identificado, que é a dificuldade de os estudantes entenderem a linguagem e a estrutura que classicamente os editais trazem”, explica o chefe do Departamento de Comunicação do IFPE, Carlos Augusto Domingos.
Deu certo: a iniciativa é alvo de elogios dos alunos e conquistou o primeiro lugar na categoria “Comunicação Pública: ideias promissoras” do 5º Prêmio Conexão Inova. O estudante Gabriel Dias aprovou o edital simplificado. Aluno do 3º período do curso técnico em Segurança do Trabalho do IFPE, ele contou ter enfrentado dificuldades para compreender as regras quando prestou vestibular em 2024.

INICIATIVA – Socorro Pimentel propõe “comunicação governamental mais acessível e inclusiva”. Foto: Roberto Soares
“Imagina um adolescente de 14 anos ter que lidar com uma linguagem técnica, totalmente burocrática, sem saber o que significava”, lembra. “Precisei pedir ajuda ao meu irmão, que é formado em Letras. O edital é o primeiro contato que a pessoa tem com a instituição. Se não conseguir entender, cria-se uma barreira enorme.”
Nova lei
Em Pernambuco, a utilização dessa técnica por entidades públicas passou a ser obrigatória no último dia 10 de outubro, com a publicação da Política Estadual de Linguagem Simples (Lei nº 18.956/2025).
A determinação vale para órgãos da administração direta, como secretarias do Governo, Assembleia Legislativa e Tribunal de Justiça, e também indireta – ou seja, para as autarquias, fundações públicas, empresas públicas e sociedades de economia mista, como Detran, Hemope, Compesa e Fundarpe.
Autora da lei, a deputada Socorro Pimentel (União) justificou que a medida tem “a finalidade de tornar a comunicação governamental mais acessível e inclusiva para todos os pernambucanos”. Ela mencionou, ainda, benefícios para a democracia, a participação cidadã, a transparência pública e o acesso a serviços essenciais.
“A complexidade da linguagem técnica e jurídica utilizada pela administração pública muitas vezes distancia o cidadão comum do entendimento pleno de seus direitos e deveres. Ao simplificar a linguagem, proporcionamos uma comunicação mais direta e eficiente, facilitando a compreensão e o engajamento do público”, pontuou.

DESBUROCRATIZAÇÃO – Para Neide Mendonça, é preciso sensibilizar servidores para a questão. Foto: Gabriel Costa
Dicas práticas
A linguagem simples busca, portanto, garantir que informações e serviços sejam compreendidos por todos, independentemente da formação educacional ou da capacidade linguística de cada um. É o que observa a professora Neide Mendonça, autora do livro Desburocratização Linguística.
Ela explica que o título foi uma provocação a Helio Beltrão, ministro da Desburocratização do governo Figueiredo, entre 1979 e 1983. “Escrevi para ele dizendo que eliminar os papéis era louvável, mas seria preciso fazer o mesmo com a língua. Ele respondeu discordando, mas eu corrigi a carta dele todinha e enviei de volta”, diverte-se a linguista. “Aproveitei o termo que estava na moda.”
A nova lei estadual reúne algumas orientações para os profissionais responsáveis por escrever os conteúdos (ver imagem). Essas e outras dicas são aprofundadas na obra de Mendonça, que reúne vários exemplos.
“Usar muito voz passiva não é adequado, deve-se usar mais a voz ativa. Também não construir frases ou períodos muito longos”, ensina. Ela defende a sensibilização dos servidores para que a norma seja posta, de fato, em prática. “Não é uma crítica ao que se escreve, que está correto, mas ensinar a estudar o melhor caminho para o leitor. Assim, você vai ser entendido, sua mensagem vai fluir.”

IFPE – Edital simplificado foi feito para ser lido no celular: “Maior parte do nosso público vai acessá-lo assim”, justifica Domingos. Foto: Gabriel Costa
Muitas dessas observações foram utilizadas pela equipe do IFPE para “traduzir” o edital do vestibular. “Partir períodos compostos, desmembrar frases muito longas, com 20 palavras ou mais, além de incluir tabelas, quadros, cronogramas, caixas de avisos e de destaque como ‘importante’”, cita Domingos.
“Além disso, o edital está no formato mobile, porque a maior parte do nosso público vai acessá-lo pelo celular. Então está na vertical, com leitura clicável, cheio de links.”
Confira alguns guias de órgãos públicos para aplicar a linguagem simples:
➡️ Manual de Linguagem Simples da Câmara Federal
➡️ Guia de Linguagem Simples da Prefeitura de São Paulo
➡️ Guia de Linguagem Simples do Conselho da Justiça Federal (CJF)