Lei busca evitar acidentes com pipas na rede elétrica

Em 07/11/2025 - 09:01
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Amanda Seabra

Soltar pipas ou papagaios pode parecer inofensivo, mas nem sempre é assim. Para realizar a atividade de maneira segura, deve-se adotar alguns cuidados, como procurar um local apropriado e nunca usar cerol ou qualquer tipo de linha cortante.  

RISCOS – Segundo Antônio Moraes, “linhas cortantes também podem causar ferimentos e mortes”. Foto: Roberto Soares

A fim de proteger quem brinca, assim como pedestres, ciclistas e motociclistas, a Alepe aprovou a Lei 18.919/2025. Proposta pelo deputado Antônio Moraes (PP), a norma foi uma resposta a situações de risco à vida, danos ao patrimônio e interrupção do fornecimento de energia.

“É comum ocorrerem curtos-circuitos, incêndios e acidentes graves quando as pipas se enroscam em postes, transformadores e cabos elétricos. A questão se agrava com o uso de linhas cortantes, que não apenas danificam a rede elétrica, mas também podem causar ferimentos e mortes, sobretudo entre motociclistas. Por isso, a necessidade de regulamentação”, detalhou o parlamentar.

A lei proíbe soltar pipas e papagaios em regiões próximas de linhas de transmissão e distribuição, subestações, postes e torres de energia elétrica. Também veta o uso de cerol e de qualquer tipo de linha cortante, como a linha chilena.

Acidentes

IMPACTO – Segundo Rafael Motta, custos para repor equipamentos danificados chegam a dezenas de milhões de reais e podem encarecer conta de luz. Foto: Giovanni Costa

A quantidade de incidentes causados por pipas em Pernambuco cresceu mais de 50% nos últimos três anos, chegando a 1.152 casos e 350 mil cidadãos afetados entre janeiro e setembro de 2025 (ver gráfico). Para o Gerente de Relações Institucionais da Neoenergia, Rafael Motta, a lei é uma ferramenta a mais para reduzir os incidentes causados por práticas inseguras.

“Além da falta de energia, os acidentes com pipas podem provocar fios partidos que, ao entrar em contato com transeuntes, levam à morte por choque elétrico”, explicou. Ainda segundo o gestor, os custos para repor equipamentos e subestações danificadas, que chegam a dezenas de milhões de reais, encarecem a conta de luz.

As linhas cortantes são outra preocupação. Apesar de proibida por lei desde 2001, o uso da linha chilena ou do cerol, que é uma mistura de cola com vidro triturado ou outro produto abrasivo, tem vitimado motociclistas e ciclistas todos os anos. A norma atual revogou a anterior, mas manteve a vedação.

Quem for pego soltando pipas em áreas com fiação elétrica ou usando linhas cortantes estará sujeito às penalidades como advertência, apreensão dos materiais e multas entre R$ 1 mil  e R$ 10 mil, dependendo da gravidade da infração.

Conforme a lei, se houver impacto na prestação do serviço de energia elétrica, serviço essencial, a multa será em dobro. No caso de os infratores serem menores de idade, as sanções serão aplicadas a pais ou responsáveis legais.

PERIGO – Uso da linha chilena ou do cerol é proibido por lei desde 2021. Foto: Gabriel Costa

 

Fiscalização

VÍTIMA – Para Jorge Azevedo, é preciso aumentar a fiscalização. Foto: Manu Vitória

Quem é vítima do mau uso do artefato carrega marcas. Jorge Azevedo, motociclista há cerca de 20 anos, voltava de um passeio na Ilha de Itamaracá, na Região Metropolitana do Recife, quando foi atingido por uma linha com cerol no pescoço e sofreu um corte profundo. Ele precisou levar 17 pontos e ficou vários dias internado.

O fato foi em 2021, mas o trauma o acompanha ainda hoje. “Depois do acidente, eu fiquei algumas semanas sem poder andar de moto. Quando fui liberado, entrei em pânico. Ficava com muito medo de passar por algumas áreas, especialmente em estradas, mesmo usando dois corta-pipas”, recorda.

Para o motociclista, além da norma, é preciso haver mais fiscalização. “O governo precisa investir em pessoal para verificar se as pipas estão com cerol. Eu quase morri por conta da irresponsabilidade de quem usa esse tipo de linha”, enfatizou.

Essa também é a opinião do presidente do Sindicato dos Trabalhadores, Empregados e Autônomos de Moto e Bicicleta por Aplicativo de Pernambuco (Seamba-PE), Rodrigo Lopes. Ele acrescenta que a categoria precisa ser mais valorizada pelo Estado. 

APOIO – “Quem faz isso por amor não quer prejudicar ninguém”, diz o pipeiro esportivo Wallace Ferraz. Foto: Reprodução TV Alepe

“A gente movimenta a economia, ajuda a fortalecer vários comércios. Fomos essenciais na pandemia, quando as pessoas usaram muito o serviço de entrega. Então é preciso haver políticas públicas para esse grupo de trabalhadores”, frisou.

As novas regras foram recebidas com tranquilidade por quem pratica a atividade regularmente. Segundo o pipeiro esportivo Wallace Ferraz, para vivenciar esse momento de relaxamento e diversão, é preciso o máximo de segurança. “Quem faz isso por amor não quer prejudicar ninguém, então nós apoiamos a lei”, disse.

Orientação

De acordo com a tenente Paloma, do Corpo de Bombeiros de Pernambuco, a lei é importante, mas conscientizar a população é o melhor caminho para reduzir incidentes. “Soltar pipa é uma brincadeira saudável, mas é importante que seja feita com segurança, sem usar linhas cortantes, porque, além de ser fatal para algumas pessoas, é criminoso”, reforçou. 

“Então, na hora de soltar sua pipa, vá para um lugar aberto, longe de redes elétricas, de postes, para a brincadeira acontecer sem riscos para quem brinca e para os outros cidadãos”, orientou a oficial.

PREVENÇÃO – Para a tenente Paloma, conscientizar a população é o melhor caminho para reduzir incidentes. Foto: Anju Monteiro

Nos casos de acidentes, é importante agir com rapidez e cautela. Em situações de choques elétricos, o Corpo de Bombeiros orienta a não tocar na vítima se ela estiver em contato com o fio ou objeto com corrente elétrica. Deve-se contatar a Neoenergia pelo telefone 116 e solicitar o desligamento na área.

Em seguida, é preciso ligar para os Bombeiros pelo 193 ou para o Samu, no 192. Se a vítima não estiver mais em contato com corrente elétrica, deve-se verificar o pulso e, se preciso, iniciar a reanimação.

Já em caso de acidente com linhas cortantes, deve-se acionar o socorro (Samu ou Bombeiros). Se houver corte profundo, pressionar com pano limpo até a ajuda chegar. Não se deve colocar nenhum produto no ferimento. Também é importante não mover a vítima nem retirar capacetes, para evitar traumas ou a piora do quadro.