Poder Público debate medidas para garantir sustentabilidade do Rio São Francisco

Em 19/07/2019

Há quase seis meses do rompimento da barragem da empresa Vale, em Brumadinho, Minas Gerais, os olhares do Poder Público se voltam agora para uma vítima em potencial da tragédia: o Rio São Francisco. Estudos da Fundação Joaquim Nabuco e da ONG SOS Mata Atlântica apontam para a contaminação do leito do Velho Chico. A hipótese é negada pelos órgãos oficiais que acompanham o caso, como a Agência Nacional das Águas.

Para apurar o assunto, foi criada uma Comissão Parlamentar na Câmara de Vereadores de Petrolina, no Sertão do São Francisco.  O grupo de trabalho foi às Câmaras Municipais de Brumadinho, Três Marias e Belo Horizonte, no último mês de março, para provocar as autoridades mineiras.

Integrante da equipe, a vereadora Cristina Costa, do PT, relatou o cenário encontrado na visita técnica. “O que mais me chamou a atenção foi o comprometimento dos rios de Minas Gerais. Os vários afluentes que desaguam no Rio São Francisco estão comprometidos, como o Rio Paraopeba. Observamos a grande quantidade de resíduos que aconteceu com o rompimento da barragem. E uma preocupação que isso pode chegar aqui até o São Francisco.”

Também de Petrolina, o vereador Gilmar Santos, do PT, criticou a atuação do Poder Público em prol do Velho Chico. “A maneira como os governos, historicamente, têm tratado esse bem é motivo de diversos questionamentos, haja vista que parte do Rio São Francisco foi privatizada. Diversas empresas estão interferindo na qualidade da água. O modelo de desenvolvimento que nós temos está focado mais em negócios do que, propriamente, em responsabilidade social.”

As Casas Legislativas dos estados que compõem a Bacia Hidrográfica do São Francisco estão se mobilizando em torno do tema. A Assembleia Legislativa de Pernambuco instituiu, em fevereiro deste ano, uma Frente Parlamentar em Defesa do Rio. Ao longo do primeiro semestre, a equipe promoveu quatro audiências públicas em diferentes cidades da Região Metropolitana e do Sertão do estado: Recife, Cabrobó, Floresta e Petrolina. A partir de agora, a Frente deve se articular com representantes do Poder Público em diferentes esferas, segundo o coordenador do Colegiado, deputado Lucas Ramos, do PSB. “Iremos acionar as outras oito Assembleias Legislativas nordestinas para que implantem ações como essa, determinando a criação de um Colegiado para discutir, exclusivamente, a saúde e o futuro do Rio São Francisco. Da mesma forma, serão provocadas as Câmaras Municipais. Os vereadores têm um papel fundamental nesse processo de cobrança do Poder Público.”  

Após o desastre em Brumadinho, no último 25 de janeiro, foram criados dois grupos de trabalho na Câmara dos Deputados: uma Comissão Externa e uma CPI. A primeira fiscaliza as barragens existentes no país e acompanha as investigações ligadas ao acidente industrial. Até aqui, o Colegiado elaborou nove minutas de proposições para o aperfeiçoamento da legislação relacionada à mineração. Os objetivos são múltiplos: definição de normas para o licenciamento ambiental de empreendimentos minerários e instituição da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens, entre outros. Já a CPI tem investigado as causas do desastre em Minas Gerais e avaliado formas de reduzir os riscos de novos acidentes. A equipe promoveu, até o momento, três audiências públicas para ouvir depoimentos de autoridades e funcionários da empresa Vale envolvidos no caso.

Em 12 de março deste ano, o Senado Federal já havia instalado uma CPI para endereçar a questão. O grupo encerrou os trabalhos no último dia 10 deste mês. Três proposições foram formuladas pelo Colegiado, segundo o relatório final da CPI, divulgado no início do mês. A primeira delas proíbe o licenciamento ambiental de novas barragens de rejeitos minerários. A segunda determina o recolhimento trimestral de Participação Especial sobre a receita líquida da mineração. A última qualifica uma infração prevista na Lei de Crimes Ambientais, com  penas diferenciadas para os casos que resultem em morte ou lesão corporal de natureza grave.