Como seria o Brasil sem o Rio São Francisco? A reflexão surge num capítulo sombrio da história do Velho Chico: o leito do curso d’água foi atingido por rejeitos da barragem da empresa Vale, rompida no último 25 de janeiro, em Brumadinho, Minas Gerais. A contaminação foi constatada por pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco por meio de imagens de satélite e de trabalho de campo, realizado entre janeiro e abril deste ano. Segundo o estudo, a lama contaminante chegou à represa da Usina Hidrelétrica de Três Marias, ainda em Minas Gerais, no dia 12 de março.
O Velho Chico atravessa o local em direção ao Nordeste do País, onde corta os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Ainda não há informações sobre quando e com que intensidade a água poluída vai alcançar a região. A vinda dela, porém, é esperada, na análise do pesquisador da Fundaj, Neison Freire. “Os resultados desses estudos indicam que, em algum momento, a contaminação vai chegar, pelo Rio São Francisco, até Pernambuco. Desde que ocorreu o desastre, em 25 de janeiro, o material contaminante continua exposto ao meio natural. Enquanto a lama não for retirada, com destinação adequada, esse risco permanece constante e cada vez mais próximo das nossas cidades”.
Conclusão semelhante teve uma pesquisa elaborada pela ONG SOS Mata Atlântica. A equipe técnica da entidade visitou trechos do Rio Paraopeba para analisar a qualidade da água, no último mês de março. Foram coletadas amostras em 12 pontos de municípios mineiros. Em seis deles, a turbidez ultrapassou os limites definidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente. Com base nos índices, a expedição detectou o carreamento de rejeitos de minério além do reservatório de Retiro Baixo, onde parcela significativa dos resíduos está retida. No início da reserva de Três Marias, a cerca de 70 quilômetros de distância, a água registrou a presença de metais pesados, como cobre, cromo, ferro e manganês. Uma prova de que parte das substâncias contaminantes não se decanta no fundo do Paraopeba e está, portanto, sendo levada rio abaixo.
Para a especialista em recursos hídricos e coordenadora da expedição, Malu Ribeiro, o problema pode impactar, drasticamente, toda a Bacia do São Francisco. “Negar o carreamento é negar a necessidade de uma ação preventiva. Ainda que os órgãos oficiais não estejam constatando o carreamento hoje, ele ocorrerá. Os rejeitos não serão retirados do corpo central do reservatório de Retiro Baixo, não será feito o desassoreamento. Os contaminantes ficarão lá”.
Mas a contaminação do Velho Chico não é consenso. No último mês de maio, a Polícia Federal coordenou uma expedição para avaliar os impactos do acidente industrial em Brumadinho. A investigação concluiu que não há evidências de que os rejeitos da barragem da Vale tenham ultrapassado os limites do reservatório de Retiro Baixo e atingido o São Francisco.
O Instituto Mineiro de Gestão das Águas, órgão do Governo de Minas Gerais, mantém a mesma posição. Mas o analista ambiental da entidade, Heitor Soares Moreira, admitiu o risco de contaminação. “Existe a possibilidade do material oriundo da barragem B1 de Brumadinho chegar ao São Francisco. Entretanto, a gente não sabe ainda com qual magnitude isso vai acontecer e se essa água vai conseguir transportar as substâncias químicas dos rejeitos da barragem, né? Não se espera que isso aconteça nos próximos anos.”
Além das ações de monitoramento, a prevenção – ou minimização – do impacto ambiental no Velho Chico depende da implementação do plano emergencial proposto pela empresa Vale à Secretaria Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais, no último mês de fevereiro. Pelo documento, a dragagem do Rio Paraopeba deve ser iniciada a partir de outubro deste ano. Dragas flutuantes vão ser utilizadas para retirar contaminantes do rio e encaminhar esses poluentes para um local adequado.
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