Solidariedade que corre nas veias

Em 28/06/2019
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“Meu nome é Thayná, tenho 12 anos, e nasci com uma anemia chamada piropoiquilocitose. Antes da cirurgia, tive que fazer muitas transfusões de sangue. Até pessoas que não me conheciam foram lá doar.” “Quando eu tinha seis anos de idade, fui diagnosticada com leucemia, aí eu precisava tomar a transfusão pra poder dar uma melhorada.” Thayná Albuquerque e Júlia Souto, de 15 anos, ainda lembram dos dias que passaram entre idas e vindas a hemocentros para receber transfusão sanguínea. Hoje, as duas estão curadas, mas preservam a gratidão e a consciência da importância da doação de sangue voluntária.

De acordo com o Ministério da Saúde, apenas 16 em cada mil brasileiros são doadores. Apesar de atender às recomendações da Organização Mundial de Saúde, de no mínimo 1% da população, o número é baixo para a demanda. Em Pernambuco, a Fundação de Hematologia e Hemoterapia, Hemope, disponibilizou, em 2018, aproximadamente 253 mil bolsas de sangue para uso em procedimentos médicos. Para isso, o hemocentro, que tem sede no Recife e outras nove unidades espalhadas pelo estado, contou com pouco mais de 127 mil doações. A assistente social do Hemope, Tânia Marchesin, explica que alguns períodos do ano afetam mais o estoque da entidade por apresentarem alta demanda transfusional. É o caso do Carnaval e do São João. “É um período em que, novamente, o uso do álcool prevalece. Nós temos, também, as fogueiras e os fogos, que, com isso, aumenta o número de queimados, que requerem muita transfusão sanguínea.”

As festas de fim de ano também são períodos críticos para os hemocentros. Segundo Tânia Marchesin, nessa época, o uso dos hemoderivados aumenta, enquanto as doações diminuem. “É interessante, também, eu colocar pra ti, que em janeiro e julho, cresce muito o número de cirurgias eletivas. E é um período que nós temos, também, que ter um quantitativo maior de doadores na casa pra fazermos frente a essa demanda transfusional. E é quando, justamente, esse doador não comparece.” Segundo o Ministério da Saúde, por ano, aproximadamente três milhões de pessoas realizam transfusão sanguínea no país. Já os doadores somam, em média, apenas trezentas mil pessoas a mais. Quarenta e dois por cento delas são jovens entre 18 e 29 anos. Os homens representam 60% do quantitativo. Pessoas como o professor Renan Beserra, de 29 anos, que doa sangue desde 2008. “Mesmo sem saber quem eu ajudei, eu me sinto, realmente, fazendo papel de cidadão e de ser humano mesmo, né, que eu tô ajudando outro ser humano. É uma dor simples, de furada de agulha. E mesmo se fosse uma dor um pouco elevada, eu digo que valeria a pena mesmo assim.”

De acordo com o Manual do Agente Multiplicador do Hemope, disponível no site da entidade, se cada pessoa saudável doasse sangue pelo menos duas vezes por ano, os hemocentros teriam estoque suficiente para atender pacientes como Maria Giovana, de 15 anos, de Riacho das Almas, no Agreste Central de Pernambuco. Com o suporte do Núcleo de Apoio à Criança com Câncer, o NACC, ela viaja 200 quilômetros até a capital para realizar tratamento de saúde. Maria Giovana tem Linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer que atinge o sistema imunológico e os vasos sanguíneos. “A doação de sangue é fundamental para o meu tratamento, porque eu sempre preciso tomar sangue quando minhas taxas estão baixas. Sempre ajuda a mim e a outras pessoas.”

O sangue doado no Hemope é destinado a atendimentos de urgência, fabricação de hemoderivados, tratamento de doenças crônicas e patologias oncológicas. Enfermeira do bloco cirúrgico do Hospital da Restauração, maior unidade de saúde pública de Pernambuco, Glíssia Paixão, de 32 anos, vê, no cotidiano, a necessidade da doação de sangue. “No meu dia-a-dia, no bloco, são realizadas em torno de 35 a 40 cirurgias, e constantemente chegam pacientes graves, necessitando de hemotransfusão. Então qualquer doação é bem-vinda, e salva vidas.” O Hemope realiza, com frequência, campanhas p ara atrair novos doadores. Parcerias com órgãos públicos e empresas privadas também contribuem para ampliar o estoque de sangue. Mas o hemocentro está aberto de segunda a sábado, inclusive feriados, a quem quiser doar. Além de gozar de boa saúde, é necessário ter entre 16 e 69 anos, e apresentar documento com foto. Menores de idade devem estar acompanhados dos responsáveis legais. O candidato não pode ter ingerido bebida alcoólica nas 12 horas que antecedem a doação.

Assistente social do Hemope, Tânia Marchesin informa que o processo é criterioso e garante a segurança de quem doa e de quem recebe. “Não deve estar em jejum, ao contrário, deve estar alimentado, e não estar fazendo uso de algumas medicações como antibiótico, anti-inflamatório… Questões como piercing, tatuagem, você só pode doar um ano depois. Já a endoscopia e colonoscopia, são seis meses.” Uma única doação de sangue pode salvar até quatro vidas.

É importante lembrar que ainda não há nenhum medicamento que substitua o sangue humano.