Desigualdade em campo: futebol feminino sofre com preconceito e falta de visibilidade no Brasil

Em 29/06/2018
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Em tempos de Copa do Mundo, o futebol é o centro das atenções. O esporte, que é paixão nacional, está no foco dos debates, na mira da imprensa e ocupa lugar privilegiado entre os assuntos das reuniões familiares e de amigos. Mas esse contexto não se repete quando a disputa mundial é de futebol feminino. O campeonato não ganha o mesmo destaque na mídia, nem na vida dos brasileiros. A professora do Departamento de Comunicação da UFPE, Soraya Barreto, estudou a cobertura midiática das principais competições internacionais femininas e pode afirmar: a atenção dada à nossa seleção de mulheres não é, nem de longe, comparável ao destaque dos jogadores na imprensa. “Há uma desigualdade gritante. A gente encontrou em torno de mais de mil matérias falando sobre a Copa do Mundo masculina e ligadas ao futebol masculino durante a Copa. O feminino, foram em torno de cento e poucas matérias, a diferença é gritante. Elas não são notícia, quase nada, é quase uma notícia obrigatória.”

Essa desigualdade tem raízes históricas. A entrada feminina no mundo do futebol é marcada por estigmas e proibições. Um decreto-lei promulgado em 1941 proibiu expressamente a prática de qualquer esporte de contato pelas mulheres, o que incluía o futebol. Segundo a pesquisadora Soraya Barreto, a proibição perdurou até a década de 1980, com justificativas que mascaravam as intenções machistas da medida. “Essa proibição nasce com relação a teorias biologizantes, onde esses esportes poderiam prejudicar a anatomia feminina, até porque nessa época inicial a mulher era vista como procriadora, e aí são várias falácias pautadas na biologia. Então, esse afastamento, ele gera na história uma invisibilidade e um afastamento das mulheres nos esportes, dentre eles no futebol.”

Esse distanciamento se reflete também nas atuais diferenças de salários e patrocínios quando comparamos os repasses feitos a times de homens e de mulheres. Para se ter uma ideia, a premiação da Copa Libertadores Masculina, em 2015, foi de 5 milhões e 300 mil dólares. Já no campeonato feminino, o prêmio pago às ganhadoras foi bem menor: 20 mil dólares.

A presidente da Comissão da Mulher, deputada Simone Santana, do PSB, afirma que o combate à desigualdade de gênero é fundamental em todas as áreas, inclusive no esporte. Só que o esporte tem um agravante, ele é inspirador, os atletas tornam-se símbolos e é muito importante que as meninas tenham essa referência de pessoas bem-sucedidas, competitivas. Desde cedo os meninos são muito incentivados a praticarem o futebol, e as meninas que mostram essa tendência, que têm esse talento, ao contrário, muitas vezes são desencorajadas, e muitas vezes estigmatizadas.”

Mas esse afastamento tem sido combatido, aos poucos, por mulheres que tentam ganhar espaço dentro dos campos. Esse é o caso, por exemplo, da equipe Ousadas Futebol Clube Amador. O grupo é composto por 20 atletas que se reúnem todos os domingos no bairro do Ibura, na Zona Sul do Recife, para jogar futebol society. Uma das organizadoras do time, Giselle Conceição da Silva, de 29 anos, explica que o nome do clube foi escolhido justamente para encorajar a prática do esporte. “Para incentivar as mulheres a não abaixar a cabeça, a não ser atingidas por certos tipos de preconceito ou coisa do tipo, a se entregar a qualquer tipo de esporte, é sempre importante a prática deles. Não é porque muitas pessoas dizem que futebol é coisa de homem que devemos encarar isso como algo que a gente não pode fazer, a gente pode sim, a gente pode sempre mais, e a gente tem que ousar.” A jogadora ainda convidou as mulheres a participar dos times e a se envolver mais com a modalidade esportiva. Uma forma de se aproximar do futebol feminino é torcendo pelas atletas brasileiras. A seleção é heptacampeã da Copa América, tendo vencido o último campeonato no Chile, em abril deste ano. Com isso, elas garantiram vaga nas Olimpíadas de 2020, no Japão, e na Copa do Mundo de 2019, na França.