Nos últimos anos o Brasil passou por turbulências políticas e sociais. Os protestos que tomaram o País em 2013, a troca presidencial pelo impeachment e as denúncias de corrupção na Petrobras e a Operação Lava Jato se intercalaram com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas, em 2016. As diretrizes de governo foram redirecionadas com a substituição do PT pelo PMDB. Os índices da violência e do desemprego aumentaram. Enquanto especialistas observam o crescimento dos discursos de ódio nas redes sociais, as eleições de 2018 se aproximam. Como entender o Brasil de hoje? Para responder a questão, o Assembleia Geral conversou com um historiador, um escritor e um psicanalista.
Do ponto de vista da historiografia, tensões sociais podem ser, às vezes, sintetizadas por ocorrências banais. O professor do Departamento de História da UFPE, Flávio Teixeira, explica como um episódio isolado, conhecido como “O Massacre dos Gatos”, ocorrido na França do século 18, já dava indícios do embate entre burgueses e aristocratas.“Trabalhadores gráficos saíram pelas ruas caçando os gatos e matando esses gatos. “Um episódio isolado para explicar as tensões sociais, econômicas e políticas na França pré-revolucionária.” Enquanto os trabalhadores viviam na miséria, um dos símbolos da vida luxuosa da aristocracia eram os animais de estimação, sobretudo gatos. O professor acrescenta que todas as formas de registro de um modo de vida ou organização humana podem ser fonte para a História.“Tudo e qualquer coisa pode vir a ser uma fonte. Jornais, documentos oficiais como sempre se trabalhou, mas também filme, fotografias, pinturas, literatura.”
A literatura produzida no País também pode ser uma pista para entender o momento atual. O trabalho do escritor goiano radicado em Petrolina, Bruno Liberal, dá indícios do Brasil de hoje. Ganhador do Prêmio Pernambuco de Literatura em 2014, o autor retrata em personagens e narrativas a vida contemporânea. “Por exemplo, na Classe Média, que é muito o meu objeto de trabalho, eu percebo isso de uma forma muito latente, muito aprofundada, muito polarizada. Isso está impregnando a forma de agir das pessoas, a forma de lidar com os problemas, inclusive domésticos. Posições altamente radicais. Isso tudo influencia na hora de você desenvolver um personagem.” Um dos contos do escritor é protagonizado por uma mulher que foi repudiada por ser parente de um homem que esqueceu o próprio filho no carro, o que levou à morte da criança. O escritor critica o julgamento público implacável. “Se hoje, eu saindo do trabalho atropelar uma pessoa, o que é que vai acontecer com a minha vida? Se eu estiver errado vou ser esse vilão que as pessoas que passarem e verem o que aconteceu vão julgar? Eu perdi toda a minha humanidade com isso?” Bruno Liberal problematiza também a relação das pessoas com a tecnologia e como os algoritmos e a inteligência artificial podem moldar personalidades.“Tudo tem uma inteligência por trás que propõe o que você gostaria de assistir. Isso acaba criando até uma personalidade para a gente.”
Na seara dos sentimentos e das angústias por que passam os brasileiros de hoje, o psicanalista e professor da USP, Christian Dunker, destaca a ascensão do ódio para traçar o perfil do contemporâneo.“Tem aí a ascensão de novos afetos sociais que substituem o medo e a inveja, que eram afetos fundamentais na relação entre as classes mais favorecidas e menos favorecidas no Brasil. A gente tem uma substituição disso pelo ódio, que é um afeto da descoberta de uma diferença que eu não conseguia até então imaginar que ela existia.” O psicanalista também considera o sentimento de frustração da parcela pobre da sociedade que se tornou classe média, mas já não tem expectativa de continuar crescendo economicamente. “A experiência de inclusão social de milhões de pessoas passando da posição de ralé para a pobreza e da pobreza para a classe média baixa ou trabalhadora. O que a gente teve foi um incremento de expectativas que foi violentamente interrompido.” Dunker acredita que as consequências dessa trajetória são ressentimento e depressão, refletidos em desinteresse político às vésperas da eleição. Não sabemos ao certo o que os livros vão dizer sobre o Brasil dos últimos anos, mas seguimos no compromisso de promover a reflexão.
COMO CHEGAR