Criar, repassar ou acreditar num boato não são novidades nos tempos atuais. Inéditas são a velocidade e a magnitude que as notícias falsas alcançam diante do uso crescente da internet e de redes sociais. Mais que isso: a divulgação planejada e articulada de notícias falsas, agora batizadas internacionalmente de fake news, tem garantido a essas mensagens um papel de protagonismo nos debates e decisões públicas recentes, o que está chamando a atenção de estudiosos, imprensa e autoridades.
Pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o professor Fábio Goveia identifica que as fake news são utilizadas, principalmente, com o objetivo de destruir reputações, sendo recorrente no meio político. Segundo ele, os mais variados formatos de divulgação são usados para isso – e-mails com links enganosos, mensagens para whatsapp, fotos e vídeos produzidos para redes sociais ou sites. Esse material atinge longo alcance com o uso de robôs que compartilham conteúdos em massa, mas, também, por conta do fator humano.
Para fazer frente a esse fenômeno, agências especializadas na checagem de informações vêm se tornando cada vez mais comuns. Jornalista do site “Aos Fatos”, lançado durante o processo de impeachment no Brasil, em 2015, Bárbara Libório explica que a equipe do portal verifica não apenas os boatos que ganham repercussão nas redes, mas também os discursos de autoridades e pessoas públicas: “Tem aquela notícia falsa que tem a intenção de prejudicar alguém ou uma instituição, aí geralmente ela trata de assuntos políticos ou econômicos. E tem aquela matéria que é realmente desinformação, que quer desinformar a população. Então é comum que elas surjam depois de notícias quentes, muito importantes que surgiram no último minuto.”
Bárbara sugere que o próprio público identifique possíveis armadilhas antes de ceder ao impulso de compartilhar a mensagem e dá as dicas para quem quer se prevenir. “Quando ler um texto, abrir o link de uma notícia, ficar atento a alguns sinais no próprio texto que já podem identificar ali se o sinal vermelho de alerta acende ou não. Por exemplo, textos com grande quantidades de adjetivos, linguagem carregada de expressões pejorativas ou aquela linguagem inflamada mesmo”.
A jornalista também chama a atenção para títulos em caixa alta ou que terminam com reticências, além de matérias sem data e sem assinatura do profissional responsável.
O professor Fábio Goveia sugere uma regulamentação respeitando as especificidades das mídias sociais: “As plataformas digitais de redes sociais elas têm uma atuação que ficam numa posição entre as agências de mídia tradicional, a imprensa, e o comentário tradicional. Então, essa regulamentação passa pelo processo de colocar essas empresas numa regulamentação semelhante a das mídias, porque hoje o serviço que elas prestam é um serviço de mídia. Acredito que essa regulamentação vai acontecer e pode sim ajudar as fake news, porque quando você é responsável pelo que tá falando, você tem que tomar muito mais cuidado”.
Representante da Coalizão Direitos na Rede, organização da sociedade civil que atua em defesa da internet livre e aberta no Brasil, Paulo Rená defende discussões mais aprofundadas sobre o tema. “O problema das fake news como um problema de desinformação que tem que ser rebatido com mais informação e não com menos. Então, o Judiciário neste momento tem que ter o cuidado de emenda com não promover uma solução que se mostre violadora de direitos. O Legislativo tem que ter o cuidado de ter um debate mais maduro. Não deve avaliar o problema das fake news apenas no contexto do processo eleitoral de 2018”.
Rená critica, ainda, propostas apresentadas recentemente no Congresso Nacional voltadas para a criminalização da prática, o que pode levar – segundo ele – à censura prévia. E sugere uma política da contrainformação.
As discussões sobre as fake news e outros temas polêmicos relacionados à internet também envolvem a Alepe, onde recentemente foi criada a Frente Parlamentar de Combate aos Crimes Cibernéticos. O coordenador, deputado Aluísio Lessa, do PSB, destaca os objetivos do trabalho: “Encontrar uma forma de melhorar, efetivamente, com campanha educativa, essa coisa tão complicada que tem sido as notícias falsas na internet em todas as áreas. Não apenas na política, mas também na questão da espionagem industrial, do ciberbullying, racismo, pedofilia”.
O Colegiado deve concluir as suas atividades no próximo mês de junho.
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