Desafios da inclusão da pessoa com deficiência visual no mercado de trabalho

Em 29/09/2017
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Em 1992, a massoterapeuta Rita de Cássia Falcão Bastos aprendeu os primeiros passos da massagem ayurvédica. Apaixonou-se.  Quis viajar à Índia, China e Japão para se aprofundar na técnica, mas não teve condições financeiras. Continuou a se dedicar ao ofício, se qualificou, e hoje está atuando no mercado de trabalho. Com um detalhe: Rita tem deficiência visual e oferece aos clientes a sutileza da sua sensibilidade de toque. “Eu tinha um lugar que seria meu escritório de contabilidade, e eu vendi, para investir nisso. Não me arrependo não. Acho que ajudei muita gente, e continuo ajudando. Sou canal, conheci a massagem e me apaixonei.”

Segundo dados do IBGE de 2010, dos 45 milhões de brasileiros que apresentam algum tipo de deficiência, 35 milhões têm limitações visuais. A lei federal de cotas obriga empresas com mais de cem funcionários a reservarem de 2 a 5% das vagas para pessoas com deficiência. Mas a inserção desse segmento no mercado de trabalho está longe de ser ideal. É o que explica José Diniz Júnior, presidente da Associação Pernambucana de Cegos, entidade que há 35 anos defende os direitos das pessoas com deficiência. “A sensibilidade do empresário é péssima em relação à gente, em Pernambuco, nós estamos com cerca de 14.500 vagas abertas para pessoa com deficiência e o empresário não contrata, porque ele não acredita na pessoa com deficiência.

Massoterapeuta há dez anos, Edvaldo Correia confirma que a discriminação é a maior dificuldade para os profissionais do segmento. “A princípio, existe preconceito, mas no decorrer do tempo, nós vamos pulando essa barreira.

De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais, 403 mil pessoas com deficiência ocupavam postos de emprego formal no País em 2015, o que corresponde a 0,84% do total de vínculos empregatícios. E uma pesquisa conjunta da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Isocial e Catho apontou que cerca de 80% dos recrutadores contratam pessoas com deficiência só “para cumprir a lei”.  

Trabalhando na função de almoxarife há 16 anos, André Damião da Silva cobra dos Poderes Públicos uma fiscalização mais intensa.  “Eu só pediria um pouco mais de controle das Delegacias do Trabalho, que eles não deixassem de fazer, essa auditoria pra ver se a empresa realmente declarou que tem pessoas com deficiência no seu quadro, se continua ou se só está usando para alguns benefícios e para não serem penalizadas.

Por outro lado, em algumas empresas já há sinais de mudança de consciência. A analista de RH Magdalena Cavalcanti conta como foi fácil a adaptação de um colega com deficiência visual no seu local de trabalho. “Antes dele entrar, eu tinha feito  uma série de modificações. Quando ele chegou aqui, ele disse que não precisava de nada disso, que a deficiência dele não o diferenciava de nós.

A qualificação continua sendo o maior desafio. O Instituto dos Cegos do Recife é mais um exemplo de entidade que realiza há 108 anos cursos para treinar os profissionais e facilitar a inserção no mercado.  A diretora, irmã Maria Gomes, defende a elevação da autoestima. “Que a pessoa possa assimilar e dizer: eu vou, eu posso, e concluir: eu tenho limite visual, mas todas as minhas demais faculdades, os talentos, estão aqui com todo potencial.

Animado, o universitário Marcelo Antônio, que ficou deficiente visual há quatro anos, não quer perder tempo. “Vou correr atrás. Eu fazia Direito, vou  terminar o meu curso, quero pleitear essa parte, de assistência social.” O telefone do Instituto dos Cegos é 3231.0936. O da Apec: 3227.3000. E há portais que oferecem empregos, como, por exemplo: pessoascomdeficiencia.com.br e deficienteonline.com.br.