Voz e poder aos pequenos cidadãos: iniciativas dão voz à juventude no Recife

Em 24/08/2017
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“Os homens hoje em dia estão muito abusadores, estão abusando muito das mulheres. E se eu pudesse falar com o prefeito eu pediria que ele melhorasse muito isso.”

“Melhorar o calçamento e também os ônibus, que só têm duas linhas, que botassem mais e botassem vigilantes nas ruas, porque está tendo muito assalto.”

As demandas são de Emily Milena Barbosa, de 12 anos, e Jonhy Victor Félix, de 14, moradores da comunidade Rosa Selvagem, no bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife. Os dois participam do Mirim Brasil, Movimento Infantojuvenil de Reivindicação. A entidade foi criada em 1990 para a defesa e promoção dos direitos da infância, adolescência e juventude. Cerca de 80 pessoas trabalham nos projetos, que alcançam aproximadamente 200 meninos e meninas em cinco bairros do Recife. A presidente do Mirim, Sylvia Siqueira, explica como é a atuação. “A gente atua com educação e direitos com crianças a partir de cinco anos de idade. Elas refletindo sobre a condição humana delas e entendendo como a família delas é composta, como ela se relaciona com os vizinhos, como ela se relaciona com o próprio bairro. Isso começa a fazer uma mudança na cabeça da criança. A gente não dogmatiza, a gente reflete.”

Na prática, isso se concretiza com a participação em conselhos, fóruns, redes e campanhas. São iniciativas que ajudam na construção de um mundo mais próximo ao imaginado pelas crianças e traduzido pela presidente Sylvia Siqueira. “O olhar da criança traz revolução para a política pública, porque ela não vai ver diferença entre o preto e branco, entre o gordo e magro, entre o protestante, o católico, o umbandista, o agnóstico, o materialista. Ela vê as pessoas como iguais.”

A avaliação é reforçada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância. A oficial do programa Cidadania dos Adolescentes do Unicef, Gabriela Goulart Mora, afirma que ouvir a juventude pode ser valioso para os gestores públicos.“O sujeito adolescente já está numa fase de construção de autonomia, de muito diálogo, de uma capacidade de interação incrível. Então, esse é um ator importante para que essa política seja implementada de maneira participativa, com diálogo, com escuta, para que se possa compreender as demandas dessa população.”  

Entre os caminhos para a participação política, o Unicef e outras entidades reforçam a importância de estratégias e planos locais, orçamento adequado, acesso à cultura e acompanhamento constante das políticas públicas. Observar as práticas que partem dos pequenos também pode ser mais interessante do que tentar replicar para eles modelos já existentes nas discussões da vida adulta. É o que acredita o  pesquisador da PUC do Rio de Janeiro, Ciro Becker. “Quando a gente está falando de políticas públicas, a gente já está falando do paradigma dos adultos. Trazer as crianças para dentro desse paradigma, de certa forma você vai acabar reproduzindo isso. Talvez seja interessante ver o que acontece quando você deixa as crianças fazerem as coisas.”  

Nesse sentido, surgiu o Núcleo Educacional Irmãos Menores de Francisco de Assis, Neimfa, na comunidade do Coque, na Ilha de Joana Bezerra, Zona Sul do Recife. A entidade, prestes a completar 31 anos, desenvolve com quase duzentas crianças e adolescentes projetos educativos que priorizam vínculos com o próximo e com a coletividade. Para o psicólogo e educador Sidney Carlos da Silva, diretor-presidente do Neimfa, o atual momento exige ações diferenciadas para despertar a ideia de pertencimento nas crianças. “A gente tem se distanciado cada vez mais, seja por conta dos processos tecnológicos, seja por conta do avanço dos modos capitalistas, da sociedade focada apenas no mercado de trabalho. Está se perdendo cada vez mais essa relação e esse vínculo com a comunidade.”

As iniciativas do Neimfa estão surtindo efeitos. Laryssa Rocha, de 16 anos, criou, com outras amigas, o Revelar.si: Coletivo de Fotógrafas do Coque. Ela conta o que tem aprendido no Núcleo. “A dar mais valor ao Coque, que é a comunidade onde eu moro e a lutar por ela se for possível e se for preciso.”

Para conhecer mais sobre o Mirim Brasil, acesse www.mirimbrasil.org. Você também pode entrar no perfil do Neimfa no Facebook, Neimfa se escreve com N de Núcleo e depois M de Menores.