Comissão de Cidadania apura denúncias de preconceito religioso em Olinda

Em 13/02/2017
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Representantes de religiões de matrizes africanas se reuniram na Assembleia para para discutir uma situação apontada como de preconceito religioso. O Ministério Público ofereceu denúncia contra o terreiro Tenda de Umbanda e Caridade Caboclo Flecheiro, localizado no bairro de Águas Compridas, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife, por perturbação do sossego. Também recomendou que seja feito o isolamento acústico dos sons dos atabaques utilizados nas cerimônias para não incomodar a vizinhança. O sacerdote do terreiro, Pai Edson, explica porque entende que essa decisão é preconceituosa. “Esse acolhimento é um ato de preconceito porque parte de um único vizinho, inimigo declarado do terreiro, e que de variadas formas deixou claro que iria encerrar nossas atividades religiosas. Além de cumprirmos rigorosamente os horários em nossas atividades, existe uma lei estadual que libera todo o ruído emitido por instrumentos litúrgicos de variadas religiões.”  

Segundo Pai Edson, as cerimônias com toque de tambor são realizadas no máximo até às nove da noite. Além disso, ele relata que todas as testemunhas, inclusive de acusação, declararam não se incomodar com o barulho produzido pelo terreiro.

Para Mãe Elza de Iemanjá, da Secretaria de Igualdade Racial do Governo do Estado, o caso do terreiro de Pai Edson é inédito porque é a primeira vez que o Ministério Público determina o isolamento acústico de cerimônias religiosas, mas perseguições aos cultos africanos são recorrentes e acontecem em todas as regiões do estado. Ela lembrou que os cultos das religiões africanas necessitam do contato com a natureza, o que torna inviável fazer o isolamento sonoro do terreiro. “A nossa primícia da nossa cosmovisão africana é exatamente a liturgia aos elementos naturais, é o vento, o ferro, a água, então, não tem como eu adorar dentro de quatro paredes e principalmente de forma acusticamente preparada. Foge totalmente, é como se o culto não pudesse existir.”

Presidente da Comissão de Cidadania, o deputado Edilson Silva, do PSOL, defendeu que a Assembleia dialogue com os poderes a fim de impedir que o processo seja julgado procedente. “Nós vamos sair daqui com um documento para encaminhar até o juizado competente que está com o processo de Pai Edson de Omulu e tentar reverter essa alegação do Ministério Público.”

Além das falas, a audiência contou com a apresentação dos tambores Afoxé Alafin Oyó. A música tocada defendeu a necessidade de lutar pelos direitos do povo negro.