Perseguição, agressão, silenciamento. Esses e outros atos de violência cometidos contra religiosos de matriz africana em Pernambuco, durante a ditadura militar, foram relatados em audiência pública da Comissão de Cidadania, nessa segunda. O encontro fez parte do Mês da Consciência Negra e foi realizado em parceria com a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, que investiga violações de direitos humanos praticadas em regimes de exceção. O relator da Comissão da Verdade de Pernambuco, Manoel Moraes, afirmou que essa foi a primeira audiência sobre a temática no Brasil, no âmbito das comissões da verdade. “Todas as comissões estaduais, inclusive a nacional, não conseguiram nos seus relatórios contemplar essa dimensão das perseguições praticadas contra essa manifestação religiosa, que são os povos de matriz africana. Nós temos documentos que mostram que alguns ialorixás eram fichados no Dops, por exemplo. Sem falar das perseguições de natureza subjetiva. É essa que nós vamos conseguir pela história oral, que não estão documentadas.”
Entre as denúncias, o professor da UFPE, José Amaro Santos da Silva, citou uma matéria de um jornal de Pernambuco, de 1983. O texto informava que a polícia havia dissolvido “grupos de bruxaria”, referindo-se a religiosos de matriz africana. Mãe Elza, que integra a Coordenadoria de Igualdade Racial da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude, lembrou terreiros violados durante o regime militar. “Algumas casas não existem mais. Elas acabaram realmente por fecharem, porque não suportaram a repressão, não aguentaram a perseguição de que foram vítimas. É aquela violência que chega na sua casa, você nem precisa sequer sair dela. Isso gerou, psicologicamente para nossos pais, de fato muitas sequelas. Vários tiveram AVC, foram vítimas de ataque cardíaco…”
Mas os relatos não ficaram restritos ao período da ditadura. Diversos praticantes de religiões de matriz africana contaram agressões sofridas recentemente. Mãe Valda, que tem um terreiro em Pirapama, no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana, disse que foi ameaçada em outubro deste ano, por uma rede social. “Várias agressões, tentando de alguma maneira me intimidar. ‘Toca fogo nisso aí! Isso é coisa do capeta!’ Fotos de armas que eles colocaram para mim. Foram vários dias sem dormir. Eu sou uma sacerdotisa, não sou uma marginal.”
Presidente da Comissão de Cidadania, o deputado Edilson Silva, do PSOL, informou que vai acatar a denúncia de Mãe Valda. “Nós vamos até lá, vamos chamar as autoridades e vamos cobrar providências para essas ameaças, inclusive para aquilo que aconteceu num outro terreiro, que colocaram fogo num terreiro.” A Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara deve ser encerrada no final deste ano, com a publicação de um relatório final, que vai ser encaminhado a instituições como Ministério Público e Assembleia Legislativa, com resultados e recomendações.
COMO CHEGAR