“Eu vim pra fazer barulho / Vim só dizer que não me expulse não / Queira ou não queira o Governo / As nossas casas você não vai derrubar não…”
Com uma adaptação dos versos de Capiba, Valquíria Nascimento mostrou a resistência dos moradores do entorno do Complexo Prisional do Curado, na zona oeste do Recife. O Plenário da Alepe ficou cheio, na manhã desta segunda, para ouvir a população em audiência pública realizada pela Frente Parlamentar em Defesa da Segurança Pública. Os moradores reclamam da desapropriação de imóveis próximos ao presídio pelo Governo do Estado. De acordo com a advogada Shiley Rodrigues, não houve diálogo com a comunidade. “Surgiu uma equipe na área, de técnicos sociais, topógrafos, fizeram os cadastros socioeconômicos, mas não deram nenhuma satisfação a essa população. Três meses, ninguém do Governo apareceu. No último dia sete de abril, foi publicado o decreto da desapropriação, e isso nos foi comunicado pela imprensa. Porque o Governo, até então, toda decisão que ele toma é unilateral.”

Moradores protestam contra a desapropriação de imóveis próximos ao Complexo Prisional do Curado
Foto: João Bita/Alepe
O pedido dos moradores é a desativação do complexo prisional, e não a retirada das casas. Em janeiro deste ano, uma fuga em massa levou o Ministério Público Estadual a recomendar ao Governo o fechamento do presídio. Daniele Rodrigues mora na Rua Santana do Ipanema, onde estão várias casas previstas para serem demolidas. “Porque pelo decreto, senhores, do dia sete de abril, nem a Rua Santana do Ipanema vai existir mais. E a nossa história vai ser jogada no lixo. Eu fico emocionada porque o Governo, ele não está vendo o lado do povo. Ele só está olhando o lado dele.”
O coordenador da Frente Parlamentar, deputado Joel da Harpa, do PTN, acredita que a ação do Governo tem o objetivo de melhorar a segurança do presídio, mas que o ideal seria a desativação da unidade. “As casas são bem próximas do muro do presídio. Então eles querem retirar essas casas para poder fazer uma cerca do lado de fora, como eles fizeram em outras áreas. É importante? É. Agora, não é essa questão que vai resolver a problemática hoje do presídio ali. Não é uma coisa de 50 ou 100 famílias. É uma coisa de todo um bairro.”
O Complexo do Curado, antigo Aníbal Bruno, é a maior unidade prisional de Pernambuco, com quase sete mil detentos. O entorno do presídio envolve sete bairros e cerca de 70 mil moradores. O líder comunitário Paulo Giroldo aponta que o Governo vê as moradias como empecilho à manutenção do complexo prisional. “O Governo do Estado está querendo colocar, como pauta de compromisso dos problemas que ocorrem em torno do complexo, moradias. As moradias existem lá há mais de 60 anos, e nunca trouxe problema pra ninguém, certo? Mas, desde que o presídio perdeu seu senso de administração, que virou, pra sete bairros ‘simplezinhos’, um terrorismo.”
Os deputados Edilson Silva, do PSOL, e Sílvio Costa Filho, do PRB, consideraram que o secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, Pedro Eurico, não tem mais condições de ocupar o cargo. A chefe de gabinete do secretário, Marta Lima, justificou a ausência do gestor e definiu com os deputados uma reunião na próxima quinta, para tratar do tema. A deputada Priscila Krause, do Democratas, questionou os eventuais critérios de avaliação dos imóveis, para estipular os valores de indenizações a serem recebidas pelos moradores, caso o processo de desapropriação avance.
Também participaram da discussão duas vereadoras do Recife: Isabella de Roldão, do PDT, e Marília Arraes, do PT. Depois da audiência, os moradores saíram em passeata até o Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo Estadual.
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