Frentes parlamentares buscam soluções para revitalização de mananciais e gestão eficiente da água  

Em 21/03/2016 - 19:09
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COLEGIADO – Frente de Revitalização do Rio São Francisco e demais Rios de Pernambuco já vistoriou Rios Capibaribe e Beberibe. Foto: Rinaldo Marques

Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, o tema da água vem suscitando debates e iniciativas. Em 2015, duas frentes parlamentares foram criadas. A Frente de Soluções Hídricas, coordenada pelo deputado João Eudes (PRP), visa à gestão eficiente da água. Já a Frente de Revitalização do Rio São Francisco e Demais Rios de Pernambuco, liderada por Odacy Amorim (PT), discute propostas e ações que sirvam de estímulo à revitalização dos mananciais.

João Eudes afirma que fará audiências públicas com prefeitos este ano e reclama da falta de repasses do Ministério da Integração Nacional para a obra da Adutora do Agreste. O projeto, de R$ 2 bilhões, pretende abastecer mais de 60 municípios da região e deveria ter ficado pronto em junho de 2015.  Faltam, porém, R$ 800 milhões. “Deveriam ser repassados R$ 40 milhões por mês, mas hoje são apenas R$ 8 milhões. Alguns municípios, como Alagoinha, já estão há mais de três anos sem água nas torneiras, e Pesqueira, com abastecimento apenas duas vezes por mês, está prestes a entrar em colapso”, critica.

A situação do Capibaribe e do Beberibe foi verificada in loco pela Frente de Revitalização dos Rios, nas primeiras de uma série de vistorias nos principais mananciais pernambucanos, iniciadas este ano. O colegiado encontrou esgoto e lixo despejados pelas comunidades próximas. “Fizemos um pedido de informações para a Compesa e voltaremos a tratar do saneamento na Alepe”, observa Odacy Amorim. No caso do abastecimento de água no Sertão, na avaliação do deputado, a Transposição do São Francisco, a Adutora do Pajeú e o Ramal do Agreste podem ampliar o acesso para a população.

REÚSO – Para Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, que busca promover atos de consumo consciente, a gestão dos recursos hídricos pelas cidades, indústrias e agronegócios deve se tornar mais eficiente. Além disso, de acordo com ele, a recuperação de florestas e vegetação em mananciais e nascentes e a conscientização da população para diminuir o desperdício, são essenciais.

“Diante da incerteza trazida pelo aquecimento global, os caminhos que a sustentabilidade nos apontam são de aproveitamento mais eficiente da água disponível, necessariamente envolvendo o tratamento de esgoto e o reaproveitamento de água de reúso e da chuva, além da diminuição do desperdício em todos os pontos da cadeia de consumo”, diz o engenheiro. Ele destaca que, entre as 100 maiores cidades brasileiras, 84 perdem mais de um quarto da água que produzem.

Uma iniciativa parlamentar relacionada ao tema do reúso é a Lei nº 14.572/2011, originária de um projeto de de autoria do deputado Tony Gel (PMDB), estabelecendo normas para a utilização racional e o reaproveitamento das águas nas edificações do Estado de Pernambuco. A norma, que ainda não foi regulamentada pelo Governo do Estado, determina que a água da chuva seja captada na cobertura de prédios e usada em atividades que dispensem água potável. Entre elas, rega de vegetação, descarga em vasos sanitários e lavagem de roupa, veículos e calçadas.

“Espero que a lei seja regulamentada, divulgada e colocada em prática o mais rapidamente possível. Não faz sentido usar água tratada, por exemplo, nos sanitários. É fundamental que os edifícios possam ter um sistema hidráulico próprio para isso”, defende o parlamentar.

 

Entrevista – Helio Mattar (Diretor-presidente do Instituto Akatu)

Responsável pela criação do Dia Mundial da Água, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que um bilhão de pessoas no mundo carece de acesso a um abastecimento de água suficiente. A progressiva demanda global de recursos hídricos para atender às necessidades agrícolas e comerciais, bem como a crescente necessidade de saneamento básico são algumas das principais preocupações do organismo, que aponta como causas de abastecimento inadequado o uso ineficiente, a poluição e a superexploração das reservas subterrâneas.

Neste Dia Mundial da Água (22 de março), a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) entrevista Helio Mattar, presidente do instituto Akatu, organização não governamental (ONG) sem fins lucrativos que desenvolve ações visando à mobilização da sociedade para o consumo consciente. O especialista alerta para o prejuízo de R$ 8 bilhões com perdas no transporte da água tratada (causado por vazamentos, roubos, ligações clandestinas, entre outros). E aponta a importância de criar novos modelos econômicos e ampliar a consciência da população.

Helio Mattar 02 (alta)

HELIO MATTAR – “Causas da falta d’água vão muito além do debate meteorológico”. Foto: Instituto Akatu


Na avaliação do Instituto Akatu, qual é, nos dias de hoje, o maior problema relacionado à preservação da água e à gestão dos recursos hídricos?

Estamos vivendo períodos maiores de seca por todo o Brasil. A falta de chuvas que atinge o Norte e o Nordeste há quatro anos, e já é a maior seca dos últimos 50 anos na região, deve continuar em 2016, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para o Instituto Akatu, as causas da falta d’água vão muito além do debate meteorológico. Envolvem a gestão de recursos hídricos das nossas cidades, pois é indispensável que a equação de atendimento de demanda, no contexto da oferta e produção de água, seja renovada. Devem ser buscadas também soluções mais imediatas de diminuição do desperdício na transmissão de água tratada – hoje com uma média nacional de 37% de perdas –, além do esforço em maior escala no tratamento de esgoto e produção de água de reúso. Envolvem ainda os modelos de produção industrial e do agronegócio, que devem ser mais eficientes no uso desse recurso. E devem considerar, como ação que corrige parte das causas do problema, a recuperação da infraestrutura verde – florestas e vegetação em mananciais e nascentes –, assim como a conscientização da população para diminuir o desperdício, enfrentando o desafio de mudar hábitos arraigados pela cultura da abundância de água.

O aquecimento global gera mais preocupação sobre a escassez desse recurso finito?

Uma nova aprendizagem que as últimas crises hídricas trouxeram é o reconhecimento de que o aquecimento global (causado pelo excesso de emissão de gases de efeito estufa na atmosfera por conta das atividades humanas) criou um cenário de imprevisibilidade sobre o clima. Não há mais como se basear, diante dessas mudanças climáticas extremas, em dados históricos de precipitação média para prever se estamos seguros ou não com as atuais reservas de água. Diante da incerteza trazida pela mudança climática, os caminhos que a sustentabilidade nos aponta são de aproveitamento mais eficiente da água disponível, necessariamente envolvendo o tratamento de esgoto e o reaproveitamento de água de reúso e da chuva, e a redução do desperdício em todos os pontos da cadeia de consumo.

Que setor responde, hoje, pela maior parte da exploração dos recursos hídricos?

Os setores industrial e agropecuário são os maiores consumidores de água. Somente a agricultura, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), utiliza 69% da água potável existente no mundo. A agricultura irrigada necessita de cerca de 20 milhões de litros de água por hectare, duas vezes a média de consumo da agricultura tradicional. Já a indústria é responsável pelo uso de 22% da água doce disponível no mundo. Como curiosidade, a produção de carne de boi consome de 13,5 mil litros a 20,7 mil litros de água por quilo produzido.

Qual o impacto do desperdício da água entre os reservatórios e a torneira da população?

No Brasil, em 2013, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), 37% de toda a água tratada no País foi desperdiçada. No Nordeste, a média de desperdício é de 45%. Em países como os Estados Unidos e Alemanha, o nível de perda no abastecimento de água não ultrapassa os 9%. O Instituto Trata Brasil fez um estudo para calcular quanto custa esse desperdício. O valor é assustador. Mais de R$ 8 bilhões em 2013. Para se ter uma ideia do quanto isso representa, naquele ano, os investimentos em saneamento feitos por todo o Brasil somaram R$ 10 bilhões. Entre as 100 maiores cidades brasileiras, 84 perdem mais de um quarto da água que produzem.

O que deve mudar na consciência do consumidor em geral?

O consumidor deve se conscientizar de que as ações diárias de cada um, mesmo que pequenas, têm um grande impacto se somadas com as ações dos outros indivíduos. O maior desafio está na necessidade de mudar o jeito de viver para garantir o suficiente para todos, para sempre, em busca da sociedade do bem-estar. E quando falamos em consumidor, não nos referimos apenas a pessoa física dentro de nossas residências. Essa consciência deve existir em cada ato que temos dentro do local onde trabalhamos, nas ruas por onde andamos e no lazer que utilizamos. Também recomendamos que a consciência de economizar não deve ficar restrita apenas aos momentos de crise.

Os consumidores resistem a adotar hábitos mais sustentáveis?

Existem algumas barreiras que dificultam a mudança de consciência do consumidor. As principais, segundo a pesquisa qualitativa “Caminhos para Estilos Sustentáveis de Vida”, do Instituto Akatu, são que as pessoas tendem a permanecer na sua ‘zona de conforto’. Há também obstáculos em razão de idade, saúde ou condição física, assim como para a adaptação do espaço em ambientes da casa. Outro fator é a crença de que o sustentável é mais caro – o que não é necessariamente verdade. A valorização da limpeza e higiene na cultura brasileira também pode levar à resistência a adotar práticas que envolvam alteração na quantidade, frequência e consumo de água. Por fim, há a percepção de impotência, isolamento e desconexão diante do tamanho dos problemas ambientais a serem resolvidos – com a sensação de que a atitude individual pode não impactar o todo.