
ENCONTRO – Palestra solicitada pelo primeiro-secretário da Casa apontou semelhanças e diferenças entre as eleições presidenciais no Brasil e nos EUA. Foto: Rinaldo Marques
Semelhanças e diferenças entre as eleições presidenciais no Brasil e nos Estados Unidos foram tema de palestra na Assembleia Legislativa, na manhã desta terça (14). O cônsul dos EUA no Recife, Richard Reiter, explicou as normas que orientam a escolha do chefe de Estado naquele país. A exposição evidenciou o caráter regionalizado da corrida pelo posto em Washington D.C. como o principal traço distintivo entre a disputa pela Casa Branca e pelo Palácio do Planalto.
Segundo o diplomata, a “regra número um” para entender o pleito americano é: “não existe eleição nacional, mas várias eleições estaduais”. Isso acontece porque cada unidade da federação, isoladamente, representa uma quantidade de votos para o candidato vencedor, proporcional ao seu número de habitantes. Os maiores estados, como Califórnia, Texas, Flórida e Nova Iorque, somados, significam 209 dos 270 votos necessários para eleger um presidente. As campanhas, por conta disso, são focadas nos estados, sobretudo naqueles considerados estratégicos – onde a preferência do eleitorado costuma oscilar entre os partidos.
“O Texas é um tradicional red state, onde os republicanos ganharam todas as eleições desde 1962. Logo, Donald Trump (o mais provável postulante republicano em 2016) não gastará o tempo e o dinheiro de sua campanha lá”, exemplificou. “Enquanto isso, a Flórida e Ohio detêm muitos votos e são indefinidos. Portanto, Hillary Clinton (a virtual concorrente entre os democratas) e Trump vão direcionar todas as suas forças para esses estados”, projetou Reiter, lembrando que, em 2012, o então candidato democrata e atual presidente Barack Obama venceu em todas as unidades consideradas indecisas.
O ganhador em cada estado leva todos os votos, independentemente de ter superado o seu concorrente por uma margem apertada. A regra permite, inclusive, que o candidato com mais votos em todo o país não seja o escolhido. “Os votos dos grandes estados são disputadíssimos. Em 2000, quando foi eleito o republicano George W. Bush, a disputa foi decidida pela Suprema Corte após denúncias de irregularidades na Flórida”, ilustrou a cônsul dos EUA para Assuntos Políticos e Econômicos, Paloma Gonzalez, que também participou do evento.
Outra diferença apontada por Richard Reiter no sistema político estadunidense é o caráter ideológico mais marcado nos grandes partidos americanos em relação aos brasileiros. Os democratas, conhecidos por blues ou donkeys, representam a centro-esquerda e mantêm bases entre os progressistas, minorias, sindicatos, pessoas de escolaridade elevada, jovens e moradores de áreas urbanas. Os republicanos, por sua vez chamados de reds ou elephants, são a centro-direita, mais populares entre conservadores, defensores do Estado mínimo, grupos cristãos, militares, veteranos de guerra e habitantes de áreas rurais.
Em comparação com o Brasil, as prévias nos partidos também são mais longas, caras e importantes na corrida presidencial nos EUA. Assim como na eleição propriamente dita, os filiados escolhem seus candidatos estado a estado, o que também intensifica o cunho regionalizado das campanhas primárias. “São as leis estaduais que regulam todo o processo. Não existe lei federal sobre as eleições”, sublinhou o cônsul.
Congresso – Os eleitores estadunidenses também escolhem, neste ano, os deputados federais e mais um terço dos senadores. O mandato na Câmara Federal dos Estados Unidos é de dois anos, contra quatro no Brasil, o que, de acordo com Reiter, obriga os representantes americanos a “estarem constantemente em campanha, arrecadando doações”. Já no Senado, o mandato é de seis anos, e um terço da composição da casa é renovada a cada dois anos. No Brasil, um ou dois terços dos senadores, alternadamente, são escolhidos a cada quatro anos, para oito anos de trabalho.
Para Reiter, a perspectiva é que, em janeiro, os democratas retomem a maioria no Senado – impulsionados pela rejeição ao candidato conservador Dolnald Trump –, e os republicanos mantenham o controle da Câmara dos Deputados, em que a margem de assentos do partido é mais confortável. “No Brasil, os cargos e verbas são divididos proporcionalmente entre os diferentes blocos partidários. Já nos EUA, aquele que detém maioria leva tudo, por isso é importante ter o controle político das casas do Congresso”, argumentou.
O presidente da Alepe, deputado Guilherme Uchoa (PDT), analisou ser necessário que os Legislativos estejam atentos às experiências de democracia ao redor do mundo, “principalmente ao sistema de um país que é modelo de economia, de política e de produção de conhecimento e tecnologia”. Para o primeiro-secretário, deputado Diogo Moraes (PSB), que propôs a vinda do cônsul à Assembleia, a ocasião contribuiu para “fortalecer os laços de cooperação e amizade com o Consulado dos EUA no Recife, uma representação que possui raízes históricas profundas em Pernambuco”.
COMO CHEGAR