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Mário Melo - abertura    A arte de viver teimosamente
por Homero Fonseca
PREFÁCIO

Ao prefaciar a biografia de Osório Borba , escrita por Andrade Lima Filho para a Associação da Imprensa de Pernambuco - AIP, em 1979, Barbosa Lima Sobrinho divagou sobre o que leva um biógrafo a dissecar sua presa. "Às vezes um motivo circunstancial, uma relação de parentesco, a posse de um arquivo pessoal, o desejo de defender idéias ou atitudes à conta do biografado, não raro um convite do próprio editor", enumerou o grande jornalista, a quem inquietavam, vivamente, as diferenças de caracteres entre Borba e Andrade. Era o biografado um polemista virulento e audaz, tecedor de artigos e epigramas incandescentes contra adversários que quase sempre resultavam demolidos. Já o biógrafo, embora igualmente afeito a polêmicas, cultivava a peculiaridade de ornar opiniões negativas com palavras suaves, às vezes até elogiosas, deixando o adversário dividido entre o incômodo causado pela crítica e a doce sensação da lisonja. Enquanto um "cuspia marimbondos", o outro desenvol-via o estilo batizado por Mário Melo de "amenismo".Acredito que razões circunstanciais tenham contribuído, decisivamente, para que a Homero Fonseca - e não a outro qualquer - tenha tocado a tarefa de biografar Mário Melo para a coleção Perfil Parlamentar - Século XX, da Assembléia Legislativa. Não creio, todavia, no acaso. Ou acredito que tudo na vida é uma sucessão de eventos regidos por uma casualidade, digamos, dirigida. "Todo casual encontro foi previamente combinado, toda humilhação é uma penitência, todo fracasso é uma misteriosa vitória, toda morte é um suicídio", vaticina Jorge Luís Borges pela boca de um dos seus personagens. No seu morde-sopra característico, Andrade Lima atravessou uma existência sem nunca deixar de dizer o que queria. Se fez amigos em todos os quadrantes da política e das letras, até hoje, quase duas décadas depois de sua morte, é fustigado por desafetos desprovidos da capacidade de esquecer... Já aquele ríspido dinamitador Osório Borba revela-se, ao fim de leituras mais atentas, um cordeiro a exercitar adquiridas habilidades de lobo.

Como aqueles dois, Mário Melo e Homero Fonseca combinam direitinho, quase gêmeos no temperamento forte, na capacidade de indignação, na paixão pelos livros e pela vida, na ânsia de querer consertar o mundo. Agregar a pernambucaníssima paixão de ambos pelo carnaval ajuda a mostrar o quanto eles têm em comun. Mas, também como Osório e Andrade, são Mário e Homero pessoas muito diferentes, um conservador assumido, outro esquerdista que não teme a autocrítica e não abre mão do direito de se reciclar.

Quando Mário morreu, Homero era um menino de Caruaru que lia, escrevia e sonhava um mundo justo. Em épocas diferentes, portanto, foram (são ainda; este encontro e estas páginas o demonstram) impulsionados pela mesma chama vital. Viraram jornalistas não como escolha profissional, mas por se tratar de um ofício que dá aos que o adotam uma chance, mesmo pequena, de interferir para melhorar o mundo. Foram esta Ética e esta Política embutidas numa visão particular do jornalismo que fizeram Homero ser quem é, e, de Mário Melo, o vivedor ensandecido aqui retratado, mestre na arte de viver teimosamente.

Conheci Homero destacado militante da Imprensa pernambucana do final dos anos 70. A barba selvagem compensava a grande calva precoce. Ambas lhe davam um ar de profeta, guerreiro de Conselheiro confinado aos limites de uma Imprensa docemente constrangida a aceitar os ditames da censura do regime militar de 1964. Homero lutava dentro do jornal - do rádio ou da televisão, pois também emprestou seus talentos a esses meios - e fora dele, atuando, ao mesmo tempo, na política partidária e no movimento comunitário, na esfera cultural e na organização sindical da categoria dos jornalistas. O tempo foi passando, Homero escreveu livros, comandou assessorias, dirigiu jornais. Domesticou a barba, não o temperamento. Outros endereços, o mesmo compromisso.

Casa política que é, de certo os nobres deputados pernambucanos pretendem, com o resgate da memória de alguns entre seus pares mais ilustres, assimilar o legado de homens como Mário Melo. E, não há dúvida, muito ganharão os deputados e a Assembléia disseminando a exemplar conduta daquele trabalhador incansável, meticuloso artífice de leis, zeloso defensor da legalidade. Mas estas não são, obviamente, as lições de maior proveito acondicionadas nesta biografia. Nem deputados são - como dizem os comunicólogos - público-alvo exclusivo.

Todos temos a aprender com um homem que, contra o interesse próprio, da família e dos amigos, cuida, dia e noite, para que o público não seja submetido ao interesse privado e para que a impessoalidade presida a elaboração das leis e governe o Governo. Exemplo do empenho desse combatente é o desprendimento com o qual se entreteve lutando, contra a unanimidade dos bem-pensantes, para que não fosse erguido um busto em homenagem a Manuel Bandeira - não pelo desejo de contrariar o poeta, mas por julgar ilegal a forma pela qual lhe seria feita a distinção. Obviamente, Mário não era santo. Espécime do gênero humano como qualquer outro, teve e exerceu o direito de errar e emendar-se - e também o de persistir em erros da vida inteira. Foi íntimo de ditadores e serviu com denodo a uma ditadura cruel como a do Estado Novo. Na juventude, utilizou seu ardente panfletarismo a serviço da causa da liberdade. Em outras tantas ocasiões, porém, limitou-se a tomar partido nas disputas entre os grupos políticos dominantes. Incontáveis vezes agredido, jamais se permitiu cair em vacilações. Prosseguiu.

Num tempo em que o jornal se anodiza e trai a palavra - como se pudesse transformar-se em televisão; num ponto da história em que a Imprensa, mais do que nunca, revela-se covarde tradutora dos consensos impostos pelas castas poderosas que a dominam; neste terceiro milênio dominado por jornais nos quais até os cartunistas se esmeram em agradar o mandão da hora; é justamente agora que precisamos ver em ação, mesmo que em fugazes lampejos (que o livro é sobre o deputado e não sobre o jornalista Mário Melo), o gênio indomável de Mário.

Ele reaviva em nossa memória a noção segundo a qual a missão fundamental do jornalista é contestar o poder - qualquer poder. Talvez seja tarde demais, mas não custa lembrar que ser jornalista é ser do contra, enfrentar o estabelecido, dar voz aos silenciados, assumir o patrocínio das causas impopulares, sobretudo das mais impopulares e mais claramente dadas como perdidas. Nem sempre - já destaquei - Mário se opôs aos poderosos. Foi, em muitos momentos, menos jornalista e mais propagandista das teses das quais se fez sectário, errando ao não delimitar claramente onde começa e termina o âmbito de cada um. Injusto será, porém, quem lhe negar o título de campeão das causas perdidas. Foi ecologista (como Gilberto Freyre ) quando a ecologia, em vez de modismo, sequer existia. Armou-se de iras e ironias e deu combate tenaz aos maus usuários do idioma português - quando era mais fácil, até mais comum, deixá-lo como está, deteriorando-se até o dia fatal em que todos, afinal modernizados, falaremos o Inglês de Miami.

O Mário Melo que Homero nos apresenta é paradigma de coragem pessoal e de zelo com a coisa pública, grande nos erros e acertos, personagem fundamental da História pernambucana.

Evaldo Costa



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