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Barreto Guimarães - abertura    Por amor a Olinda
por Graça Gouveia
ACERTO DE CONTAS

Um ano antes de morrer, Barreto Guimarães concede entrevista ao jornalista Selênio Homem de Siqueira, para um espaço que a Editoria de Política do Diario de Pernambuco reservara, às segundas-feiras, ao perfil e a depoimentos de figuras-chave da política pernambucana. Entretanto, a matéria não chegou a ser publicada e, agora, mais que oportuno, fica registrada aqui, como a versão final dos fatos vividos, o acerto de contas do homem com a História. Eis a entrevista:

SELÊNIO HOMEM - Olinda é uma cidade quase sem alternativas econômicas. Sua fonte de renda maior, por enquanto, ainda é o IPTU. O que poderá salvar o município dessa apatia arrecadacional?

BARRETO GUIMARÃES - Nós temos aqui bem perto, na cidade do Recife, o exemplo perfeito de um administrador criativo. Falo de Jarbas Vasconcelos. Há pouco, ele promoveu o segundo Recifolia - um belo carnaval fora de época -, que foi um sucesso estrondoso. Milhares de pessoas vieram de todas as partes do Brasil participar dessa frevança extemporânea, que gerou consumo, um número incalculável de empregos provisórios, ocupação total da rede hoteleira, enfim, a iniciativa beneficiou ricos e pobres, principalmente os pobres.

Quanto a Olinda, a administração municipal deve botar na cabeça que o setor terciário de turismo e serviços é a saída econômica para a cidade. Acho mesmo que o município é vocacionado para essa atividade. A ex-capital não tem indústrias e é uma das menores áreas urbanas do País em relação à densidade demográfica. Com seus espaços totalmente ocupados, não pode, evidentemente, tornar-se um pólo industrial. Então, turismo em Olinda representa uma opção fundamental e básica, porque a cidade tem o atrativo de um acervo histórico, possui uma paisagem encantadora, além de um carnaval exuberante, participativo e autenticamente pernambucano.

SH - O fato de a cidade ostentar o título de Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade, conferido pela UNESCO, ajudaria em muita coisa?

BG - Só ajudaria. O título é um auspicioso estímulo ao turismo. Entendo que, sob múltiplos aspectos, esse reconhecimento da UNESCO pode facilitar o trabalho da Prefeitura para a conquista, por Olinda, de um bom lugar ao sol no cenário turístico nacional e internacional. Com o diploma, creio, qualquer dirigente da cidade terá condições, por exemplo, de chegar aos Governos da União e do Estado e exigir um tratamento diferenciado para o município. Tanto nessa área quanto em outras que, de alguma forma, possam influenciar no crescimento do turismo.

Um trecho do pronunciamento de Amadou Mathar M'Bow (ex-diretor geral da UNESCO), na solenidade de entrega a Olinda do notável título de Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade, bem revela o grau de fascínio que a ex-capital de Pernambuco desperta no visitante. Convém aqui repeti-lo:

"Olinda foi sempre, certamente para responder a uma misteriosa vocação, uma cidade de poetas, pintores, escultores, ceramistas, uma cidade de música e dança, em um cenário natural tão suntuoso que não sabemos se é preciso descrever como um conjunto arquitetônico ornamentado de jardins ou um parque tropical decorado de monumentos."

SH - Como prefeito de Olinda, o senhor construiu os enrocamentos submersos que, ainda hoje, garantem a proteção das praias da cidade contra o avanço do mar, desde a Ilha do Maruim à orla do Rio Doce. Fale-nos um pouco sobre a história desse empreendimento.

BG - Naturalmente que a obra jamais seria feita com recursos próprios da Prefeitura de Olinda. Devo a iniciativa ao meu inesquecível amigo Juscelino Kubistchek que, atendendo aos apelos do ex-senador Jarbas Maranhão (responsável pela minha iniciação política) e dos deputados federais Amaury Pedrosa e Pontes Vieira, interlocutores do município junto ao presidente, comprometeu-se a começar a execução do importante projeto. A esse tempo, os estudos do laboratório de Grenoble, na França, indicando a solução para conter o avanço do mar no litoral olindense já estavam prontos. Porém, Juscelino, sentindo a importância do acervo histórico e cultural de Olinda, prometeu tocar a obra o mais rápido possível. No dia 29 de novembro de 1959), mandou o seu ministro da Viação e Obras, Amaral Peixoto, representá-lo na solenidade que marcou, na Praça do Carmo, o início dos trabalhos. Naquela data, começa um grande esforço de sucessivos anos - que, naturalmente, alcançou outros presidentes - deflagrado, faço questão de frisar, no Governo de Kubistchek.

SH - Que outra obra também marcou sua administração?

BG - Trabalhamos muito, sempre com minguados recursos. Mas um outro trabalho de fôlego aconteceu na minha gestão. Foi a ligação Salgadinho-Campo Grande, abrindo, assim, um segundo caminho para se ir de Olinda ao Recife e vice-versa. Naquela época, o percurso entre as duas cidades era penoso. Consumia, nos momentos de pique, de uma hora e meia até duas horas. E por falta de acesso fácil para o Recife, Olinda naturalmente é que saía perdendo. Sem estímulo, o comércio declinava, muitas casas chegaram, por isso, a fechar, enquanto a desvalorização imobiliária reduzia, ainda mais, os recursos públicos da Prefeitura.

SH - Mas a construção do Complexo Rodoviário de Salgadinho solucionou definitivamente o problema, não foi?

BG - É verdade. Porém, eu já não era prefeito de Olinda e, sim, vice-governador, isso na gestão de Eraldo Gueiros Leite, meu querido e saudoso companheiro. Na solenidade de nossa posse, disse ele, no seu discurso, que o vice-governador Barreto Guimarães dividiria com ele todos os segundos da nova administração. E assim o fez. No primeiro dia de Governo, eu disse a Eraldo que Olinda não perdoaria se eu passasse pela Vice-Governança sem realizar uma grande obra na minha cidade. Aí ele me perguntou: "E qual é a obra"? "O Complexo de Salgadinho", respondi. "É um empreendimento caro", lembrou, mas logo consertando: "Porém, vamos fazê-lo, com certeza."

O Complexo foi inaugurado 48 horas antes de Gueiros passar o Governo a Moura Cavalcanti. Fizemos tudo sem ajuda de ninguém, com recursos próprios do Estado. Coube a mim, por delegação de Eraldo, fazer o discurso em nome do Governo. Um gesto nobre, sem dúvida.

SH - O Complexo resolveu, apenas, o problema de acesso dos olindenses à Capital ou trouxe ainda outras vantagens?

BG - Proporcionou, realmente, outras vantagens. Convém lembrar, por exemplo, que, sem a obra, não existiriam hoje, na área servida pela malha viária, o Centro de Convenções, o Memorial Arcoverde, o Shopping Tacaruna (em construção), o Play Center. Da mesma forma, não ocorreria ali a valorização de imóveis agora constatada, nem tampouco a ampliação da rede hoteleira de Olinda. Então, parece-me que, como prefeito, vice-governador, deputado estadual e secretário de Estado, no desempenho de cargos públicos, cumpri minha parte na busca para as questões fundamentais de Olinda.

SH - Como professor de Matemática, muito antes de ingressar na política, o senhor desenvolveu um trabalho pioneiro no setor de educação. Qual foi esse projeto?

BG - Foi o Serviço de Assistência Social de Olinda - SASO. Eu concebi, executei e mantive o projeto, durante 32 anos ininterruptos. Representou esta iniciativa uma campanha de amplo alcance para a construção de escolas rústicas nos bairros de Jatobá, Córrego do Monte, Caravelas, Guadalupe e Ilha do Maruim. Escolas cobertas de palha de coqueiro, sem paredes, piso de barro batido, na maioria das vezes. Essas unidades mostraram ao País que é possível levar o ensino primário a todos os recantos, mesmo quando as condições financeiras são desfavoráveis. É só uma questão de amor, de vontade de fazer. Hoje, muitos dos ex-alunos do SASO são detentores de títulos universitários - e se orgulham do aprendizado que tiveram nos seus núcleos. Um deles é o professor Valdery Ribeiro. Recentemente, recebi convite dele para posse de seu substituto à frente da Pró-Reitoria Administrativa da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

As escolas do SASO foram um trabalho do mais puro idealismo. São muitos os professores, assistentes sociais, advogados, que passaram pelas bancas dessas escolas e que hoje são profissionais de reconhecida competência. Não recebíamos subvenções de qualquer tipo. Eu sempre as rejeitava. Tudo era produto de doações. O material escolar, lembro-me, todos os anos era doado pelo meu amigo Antônio Pereira, proprietário da Livraria Universal. E, depois da morte dele, pelo seu filho, até a desativação das escolas. Tudo acabou se transformando numa vitoriosa experiência de educação popular, na qual acreditei.

SH - Agora, falemos um pouco de política. Qual a sua opinião sobre o Governo do presidente Fernando Henrique Cardoso?

BG - Não sou economista, mas acho que a prolongada duração do Plano Real já evidencia sua eficácia. Não seria, assim, um engodo, como foram os planos anteriores. Entendo, porém, que o plano não deve projetar-se, apenas, na área econômica. Para confirmar sua validade, há de firmar-se também - e sobretudo - no segmento social. Desajusta-se um pouco o setor agrícola, quando estabelece uma correção do crédito acima da correlação dos preços. E isso transformou a dívida dos agricultores num compromisso quase impagável. Mas, de um modo geral, as coisas estão se equilibrando. Agora, penso que ainda é cedo para se cobrar sucesso do Governo na esfera administrativa. Espero que o FHC seja tão bom administrador quanto está sendo excelente diplomata. Suas bem-sucedidas viagens ao estrangeiro podem resultar em novos e amplos investimentos no País. Assim, seu trabalho não tem sido apenas diplomático, mas pragmático.

SH - E o vice Maciel? Estaria inaugurando um novo estilo de ser vice-presidente? Será que ele, como vice, imita o Barreto Guimarães vice-governador de Eraldo Gueiros Leite?

BG - O meu julgamento do atual vice-presidente Marco Maciel não é de hoje. Sempre o considerei uma das melhores expressões da política brasileira. Honesto, empreendedor e idealista. E sempre me orgulhei de tê-lo como amigo. Maciel trabalha muito e tem um comportamento discreto, sóbrio, com bom senso e equilíbrio. Jamais se omite. E sabe de uma coisa? Nada mais fácil do que se derrubar um vice-presidente, um vice-governador ou um vice-prefeito. Basta o titular ignorá-lo. Comigo foi diferente, porque antes e durante a sua posse, Eraldo declarou, enfática e explicitamente, que tinha me escolhido para vice por desejar dividir comigo todos os segundos de seu Governo. E isso até deu margem a que outras pessoas tentassem evitar esse entrosamento, até porque aquele novo estilo nunca fora uma tradição em Pernambuco. Eu me lembro que Eraldo esteve no Rio, no começo do Governo, lá no Escritório de Pernambuco, e ali, um jornalista do Estado, ao entrevistá-lo, perguntou: "O senhor sabia que lá na terra estão dizendo que a Administração só anda quando o senhor se ausenta e o vice assume?" A esse veneno, Eraldo respondeu: "Esta é uma notícia que muito me agrada, apesar do sinal de intriga que ela revela. Quero mesmo um vice-governador atuante". Ao desembarcar nos Guararapes, ele contou-me o episódio, ainda debaixo da asa do avião, rindo a valer.

SH - E o "seu" Encontro de Salgueiro? Foi mesmo a pedra fundamental da criação da SUDENE?

BG - Sempre me preocupei com o procedimento discriminatório do Governo Central em relação ao Nordeste. E acho que o problema tem sido um verdadeiro desafio histórico. Talvez, por isso, em 1955, o então presidente da Assembléia Legislativa do Estado, meu querido e saudoso José Francisco de Melo Cavalcanti, tenha me incumbido de elaborar a tese com a qual Pernambuco participaria naquele ano, em São Paulo, do I Encontro Nacional de Assembléias Legislativas. Deixou-me a tarefa de escolher o tema da tese. E eu escolhi exatamente O Sentido Nacional dos Problemas do Nordeste Brasileiro. E tive a idéia de levar o debate deste assunto para o âmago da região nordestina, a cidade de Salgueiro. Foi uma reunião proveitosa entre políticos e técnicos. Por conta desse trabalho, que durou vários meses no seu todo, não consegui me reeleger deputado estadual. Mas foi um preço barato para a grande conquista que obtivemos. Não digo que a SUDENE nasceu daquele encontro, mas acho que o simpósio, como tantas outras iniciativas semelhantes, concorreu decididamente para esse desfecho.

Quero até salientar que a criação da SUDENE foi uma das maiores conquistas populares dos últimos tempos, como o foi também a PETROBRÁS, hoje reduzida na sua conceituação nacionalista. Temo que a SUDENE seja extinta, o que representaria uma violência injustificável contra os superiores anseios dos brasileiros do Nordeste.

SH - Como é, agora, a vida do professor Barreto Guimarães, aposentado?

BG - A política é sedutora. Tem seus momentos de angústia, inquietação e decepção, mas aquele político vocacionado jamais se afasta da luta. Hoje, com restrições de saúde, porque sofro do Mal de Parkinson, estou conseguindo conviver, relativamente bem, com a doença, e não me excluo de participar da política de Olinda, de Pernambuco, e até troco idéias com amigos sobre problemas nacionais. Com relação à família, creio que se beneficia do meu ócio, porque agora convive muito mais comigo. Faço o meu cooper diário, de quatro a seis quilômetros, coisa que sempre exercitei e gosto de fazer. De modo que, apesar dos impedimentos de ordem física, ainda me sinto permanentemente motivado pela política. Continuo atento a tudo.



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